1.12.09

O que eu já não posso ser...

Se aos 10 anos podemos ser tudo o que quisermos, desde astronautas a veterinários, de ginastas olímpicos a craques do xadrez, aos 20 a coisa complica. Mas mesmo assim nada nos impede de mudar e remudar de curso, de aprender de raiz uma arte, um instrumento ou sonhar com a carreira de modelo.

Aos 30 é que começam-se mesmo a estreitar os horizontes no que respeita àquela velha pergunta do que se quer ser quando se for grande. E por isso fiz mentalmente, e agora graficamente, uma lista de coisas que já não posso ser, por muito que me esforce e por muito boa vontade que tenha:

- desportista de alta competição, seja de que área for

- músico, bailarino ou cantor

- actor nos "Morangos com Açucar" (posso ser pai, ok...)

- modelo (não é que ache que alguma vez pudesse mas enfim...)

- médico (seriam precisos uns 5 anos a tentar entrar no curso mais uns 15 para o terminar!)

- participante nos "Ídolos"

- detentor de Cartão Jovem

- praxado num curso Universitário (poderia mas o mico a pagar era enorme)

- hospedeiro de bordo (termina aos 26 a idade para a TAP...)

- backpacker for life (também podia mas já não deixava tudo o que me faz ser sedentário)

- utilizador de peças de vestuário S ou XS (até me vieram as lágrimas aos olhos ao dar 4 sacos enormes cheios de roupa que já não me entra!)
Imagino que aos 40 vá acrescentar mais alguns pontos a esta lista. E por aí em diante. É aproveitar enquanto não olham para mim vestido de Skinnies e All Star e pensam que o velhote surtou! Mas assim como assim, já se foram todas as T Shirts não largas e já me olho a mim próprio com desconfiança quando vejo mais do que uma cor nas minhas sapatilhas...

26.11.09

Humor Fraco

Cheguei à conclusão que tenho muita dificuldade em achar piada a ficção. Ou seja, é raro o programa, série, filme ou outro entretém que me faça rir. No cinema, a comédia é aquele género que nunca escolho pois sei que invariavelmente não vou achar piada nenhuma.

E na minha constatação triste de que poderei ser sério demais, pus-me a pensar na ficção que me faz e na que não me faz rir. É mais fácil falar pela negativa, e garanto que muitas sobrancelhas se levantarão em espanto de horror quando disser que acho tanta piada aos Malucos do Riso quanto acho ao American Dad, Family Guy e Futurama. Mais ainda se disser que enjoo com o Monthy Python e todo o humor inglês, incluindo os intocáveis Mr. Bean e o outro que inspirou o Herman e que não me lembro o nome. E nem tentem convencer-me a ver "Will e Graces", "Abs Fabs", "Queer as Folk" ou outros. Garanto que já o fiz e adormeci sempre. Nem o Sai de Baixo (este último faz-me dores de cabeça para uma semana), nem o Jô Soares e os seus amigos Jay Leno, David Letterman e Jon Stewart. E ainda menos os Gato Fedorento (só gostei das entrevistas deste último programa, mas os humoristas eram os entrevistados...), os Contemporâneos, Tv Rurais e outros que tais.

Não gosto de nenhum. Há pessoas que são esquisitas a comer, eu sou esquisito no humor. Mas há quem me faça dar gargalhadas sozinho a olhar para a televisão. Nos tempos idos do Herman, chorava a rir com o "Crime na Pensão Estrelinha" ou "O Tal Canal" e o "Casino Royal". Dos Estados Unidos, os únicos que suporto, ainda, são os Simpsons porque tudo o resto me faz imediatamente mudar de canal. Ri-me muito com "O Sexo e a Cidade" mas para o fim percebi que são um grupo de quatro mulheres simplesmente lobotomizadas e com um chip implantado no que restou do cérebro com a ordem eterna de procurar pila para sobreviver. A respeito delas, acho que a cada episódio do "Sexo e a Cidade" a emancipação da mulher anda para trás três décadas...

No top do meu humor preferido está o "Bruno" e o "Borat" e tudo o que o Sacha faz. Basta aparecer, eu já me rio. Assim como a série britânica "Shameless", que pouca gente conhece mas que já vai na quinta temporada, na Sic Radical. Também me rio muito com vídeos do Youtube de malta a cair, especialmente as modelos, e com outros vídeos que lá andam, como o "Hilarious" passado numa televisão belga. Sou tão idiota que parto-me a rir com apanhados, mesmo aqueles que dava na Sic antes da telenovela. Sou capaz de passar uma boa meia hora colado neles e a gargalhar.

Tenho um humor tão básico e tão pouco inteligente que outro dia ao ver a telenovela chorei a rir até ficar com falta de ar quando, não sei como nem porquê, se ouve um barulho igual a um bruto peido quando a Luciana está a ter uma conversa muito séria com a mãe, a Tereza.

25.11.09

Pessoas fofíssimas

E porque hoje se avariou o aquecedor a gás, meu fiel amigo que me aquecia a casa e que me consolava (chegava a andar de T Shirt cá dentro nos dias mais frios), estou com vontade de exorcizar.

Odeio pessoas fofíssimas, como diz a senhora da novela. Para quem sempre tudo está bem, que nunca têm uma má intenção e que são cheias de príncipios. Aquelas que têm sempre roupa em tons pastel e cachecóis com nós difíceis, as botas com o tacão admissível e o porta-moedas com aquele tecido Burberrys camel. Especialmente meninas fofíssimas, que têm o cabelo sempre muito arranjado mas sem ser arrojado, carinha com maquiagem básica e unha com verniz do tom da pele.

Mas também os há rapazes fofíssimos, geralmente namorados das meninas fofíssimas e que trabalham arduamente na empresa até às tantas, que não têm vícios a não ser ir ao futebol de quando em vez com os sobrinhos pequenos, que usam camisas compradas pelas suas namoradas fofíssimas, aos quadrados e com fundo branco. Esses rapazes não usam calças de ganga mas usam "jeans" e têm porta-chaves com a marca do carro. As pessoas fofíssimas dão-me nos nervos geralmente porque, embora com uma aparência monárquica, na intimidade deixam cair a fachada e são, respectivamente, umas coscuvilheiras e preconceituosas de primeira ou, no caso deles, uns putanheiros de primeira linha.

19.11.09

Savage Grace


Vi este filme e apeteceu-me várias vezes vomitar. Não que seja mau. É até uma das melhores interpretações da actriz da minha vida, a Julianne Moore. Ainda mais sabendo que foi baseado num caso real, a sensação física pútrida que eu tive perante aquele argumento não a consigo explicar. A sério que senti aquelas primeiras golfadas de vómito a querer subir-me pelo esófago- tinha comido uma taçada enorme de gelatina e estava mesmo a ver aquilo a sair-me em jorro pelo sofá acima. Muitas vezes fechei os olhos como as crianças fazem nos comboios-fantasma e quase cedi à tentação de, em algumas cenas, puxar o filme para a frente.
Imagino que fosse ter a mesma sensação se visse um filme de sexo com animais. Há determinadas coisas que, desconstruídas, têm um aspecto simplesmente nojento- é como ver os coelhos mortos e esfolados às portas dos talhos ou melhor, aqueles coelhos ainda embalados com pêlo nas prateleiras das carnes do Continente. E pronto, acho que é a melhor descrição que encontro do "Savage Grace".

As (des)virtudes do capitalismo

Confesso que estou farto de ir a sítios e esperar. A atitude perante esperar a nossa vez numa fila não é uma coisa que venha assim de uma vez só: é gradual e, como todas as coisas graduais (o envelhecimento, a escolaridade, a confiança...), não é uma sensação que se tenha logo por inteiro. Não chego a um sítio e tenho imediatamente a noção do quanto me vou chatear, exasperar, cansar por estar à espera naquela fila. É até uma sensação bem ingrata: entramos em determinado local, vemos quantas pessoas temos à frente, fazemos um cálculo médio do que achamos que vamos ter que esperar e, frustrando os nossos cálculos, não há nada que possamos fazer.

Só esta semana já esperei que me fartei três vezes. E o conjunto dessa espera revelou-se em cerca de três horas inúteis na minha vida. O equivalente, portanto, ao tempo que demora a chegar de avião a Roma ou a fazer um exame (com tempo de compensação) para entrar na Faculdade. Mais tempo ainda do que a ver o filme das nossas vidas, a celebrar o nosso jantar de aniversário ou a assistir ao parto de uma criança.

E neste tempo que passei à espera, pus-me a pensar no porquê da espera. E foram três porquês muito diferentes.

A primeira situação foi no dentista, onde esperei 45 minutos embora fosse a primeira consulta da tarde. Este hábito português de chegar atrasado corrói o dia inteiro de milhares de indivíduos. Porque o dentista se atrasou, não cheguei a tempo de fazer algo, que envolvia outras pessoas, que por conseguinte tinham compromissos desmarcados com outras pessoas, que não puderam resolver um assunto porque essas pessoas ficaram em vão à minha espera. Se fosse a Maitê Proença a dizer que os portugueses eram atrasados (no sentido horário da questão) era um ai Jesus de insultos no blog da desgraçada. Mas a verdade é que temos esta tradiçãozinha medíocre de não cumprir horários e pôr outras pessoas à espera com a mesma naturalidade com que lavamos os dentes. Chegado o dentista, ainda se atrasou a preparar a sala e a consulta agendada para as 14.45 acabou por começar perto das quatro. Na sala de espera, entretanto, os outros clientes desgraçavam-se nas páginas das Vips de há dois anos...

A segunda experiência de espera foi no banco. E mais ou menos à mesma hora. Duas e meia entrei e aguardei numa fila pequena, com apenas uma pessoa à minha frente. Não contava que as duas pessoas que estavam a ser atendidas demorassem 50 minutos a esclarecer as suas questões. Que não eram questões, eram azelhices. Os desgraçados dos bancários revezavam-se para explicar que x se fazia desta forma e não desta e que y queria dizer isto e não aquilo. A cada esclarecimento, as duas clientes tinham cada vez mais dúvidas e pareciam não querer arredar pé dali tão cedo. Desta vez eu estava à espera por outro motivo: a desorganização. Na mesma fila havia pessoas que queriam tratar de assuntos rápidos, alguns urgentes, até, e aquelas senhoras, que entre outras coisas perguntaram como se escrevia "solicito", estavam simplesmente a passar um bom bocado do seu dia a chatear a cabeça do empregado bancário. Lá acabaram por sair, perante os suspiros e os olhares matadores de uma fila enorme que entretanto se formou e eu lá resolvi o assunto em cinco minutos.

A terceira foi a pior de todas. Na PT, por si só esse bastião do "bom" atendimento ao público. Loja da Baixa, meio da tarde, quatro pessoas à minha frente. Esperei uma hora. Não que lhes faltasse organização pois até tinham uma senhora a perguntar às pessoas que chegavam o motivo de ali estarem. O problema aqui é mesmo o capitalismo: embora houvesse quatro balcões de atendimento, só um tinha um apatetado funcionário, que não conseguia dar vazão aos clientes que se amontoavam com dúvidas sobre facturação, promoções, chamadas, etc.

A minha experiência de espera na PT deu-me mais uma vez a certeza de que o capitalismo não funciona: a concorrência nunca trará melhores serviços. A PT, como outras grandes empresas, optam por poupar em funcionários, condicionando as experiências nas suas lojas a filas intermináveis, igualmente intermináveis num dos seus concorrentes. Porque o lucro pede sempre mais lucro e nunca será investido em aumento do número de pessoas ao serviço do cliente. Quer ao telefone, onde raramente os assuntos são tratados do início ao fim com uma só chamada e onde o custo para a pessoa que reporta o problema é astronómico, quer ao balcão, onde os recursos humanos são escassos, os clientes ficam insatisfeitos e, também, raramente têm as suas questões resolvidas, a grande empresa falha o objectivo de ter um cliente bem-disposto com um determinado serviço.

Se a PT fosse do estado, decerto dez senhoras donas Alziras estariam atrás de guichets e muitas delas sem ter o que fazer. Mas havia mais emprego e clientes mais satisfeitos. A nossa moeda era mais fraca, está certo, porque o dinheiro do estado era todo gasto em milhares e milhares de funcionários públicos; ninguém investia em Portugal com medo de que o estado de repente se lembrasse de nacionalizar o investimento estrangeiro... mas quanto a mim vos digo- eu teria saído da PT uma hora e tal mais cedo, com o assunto resolvido. E teria aproveitado a bonita tarde de Sol que se pôs para lanchar com uma pessoa com quem tenho muitas saudades de conversar e que ficou, em vão, à minha espera.

E, agora entre nós, tirando as linhas cruzadas, que até eram divertidas, não me lembro de na minha infância e adolescência os telefones darem problemas. Agora é semana sim, semana não. São as virtudes do capitalismo e da concorrência, onde ainda esperamos por gasolina mais barata e onde o nosso dinheirinho vai, no fundo, cair nos bolsos de dois ou três muchachos em vez de ir parar aos do estado. "É a vida", diz a Manuela.

17.11.09

Dias sem Luz

Estes dias de Novembro que não são sim nem sopas costumam ser simplesmente deprimentes. Lá fora, a luz do dia, quando a há, desaparece às três ou quatro da tarde, para se instalar aquela corzinha cinzenta da chuva e do vidro da varanda, onde nos encostamos a tentar que a nossa respiração não deixe tudo ficar baço.

Mas onde quase sempre fazemos um coração, ou as iniciais do nosso nome. O mesmo vidro do qual quando nos afastamos verificamos que deixamos a nossa impressão, seja a da testa ou a dos dedos... e quase sempre vamos depois limpar inutilmente com a cortina.

Mas o que importa é a chuva. No meu país ideal não choveria nunca, a não ser que estivesse calor e então poderia chover à vontade. Ou se chovesse tinha que ser obrigatoriamente no cenário dos meus últimos dois dias:

o aquecedor a gás no meio da sala, entre os sofás onde nos aninhamos com as nossas mantas: quatro, duas daquelas polares do Ikea, uma vermelha com brilhinhos e outra que é o meu cobertor desde menino muito pequenino. A Daisy no meio, sem prestar atenção à chuva mas levantando a cabeça ao mínimo sinal de esperança de passear.

na televisão séries atrás de séries e um filme estúpido e estupidificante lá pelo meio. Suspirar de cada vez que um dos nossos telefones toca porque temos que sair desta letargia que dura a tarde toda. De vez em quando, passar os pés pelo soalho para abanar o rato do computador a ver se alguém comentou alguma coisa.

e comentar entre nós as coisas mais banais do mundo. Comentar coisas entre nós quase sem comentar, com uma dessas afirmações que parece comentário mas que não exige resposta. E se calhar, no meio dessas, duas gargalhadas enormes de fazer a caneca de chá cor-de-rosa baloiçar e quase cair perto do focinho da Daisy.

não tirar o pijama. Ou tirá-lo para tomar banho e depois voltar a pô-lo, quando ainda está quente e aquele banho pareceu lavar tudo menos o conforto que nos faz saber que chove lá fora e nós cá dentro. Dias cheios de luz, portanto.

15.11.09

Conversas atentas...

Em movimento...



Alguns dos comboios, restaurantes, quartos e momentos que fizeram a viagem... Depois de pararmos em Paris durante umas horas (o lugar mais perigoso das férias todas) lá chegamos ao Porto já passava da meia-noite.

Como disse, já me picam os dedinhos para começar a organizar a próxima...

12.11.09

Auschwitz e Birkenau



Ouvia outro dia na televisão uma habitante da antiga Alemanha de Leste dizer que tem em vantagem relativamente aos ocidentais o facto de saber que, de um dia para o outro, a vida pode mudar radicalmente. De facto, nós damos tudo por garantido e achamos que o nosso modo de vida, como sempre o conhecemos, não irá nunca sofrer alterações até ao fim da nossa existência. Alterações de fundo, quero eu dizer: seremos sempre cidadãos relativamente livres, relativamente respeitados pelas forças de segurança, com um bem-estar razoável que nos fará, com 99% de certezas, nunca passar frio ou fome, nunca estarmos sujeitos a tortura e conseguirmos, uns melhor que outros, viver o nosso dia a dia com uma considerável dose de felicidade, partilhando-a com as pessoas de quem gostamos. As nossas adversidades, como a doença, não são vontade expressa de ninguém- acontecem por infortúnio e não existe realmente ninguém a quem possamos atribuir a culpa.

A nossa felicidade é, penso eu, construída pelo facto de gozarmos de liberdade suficiente para nos movermos num espaço, sem que as nossas acções, desde que enquadradas num âmbito legal unanimemente aceites, possam ser castradas. Eu posso, de facto, sair de casa e comprar comida, visitar um amigo, falar com a minha família, vestir a roupa que entender, escrever o que me passar pela cabeça, viajar por todo o país e por todo o mundo. Posso dançar, posso ficar quieto, posso conduzir, usar as coisas que compro, observar a Natureza ou ficar o dia todo pasmado a ver televisão. Isto porque não fiz nada que justifique a minha prisão.

Ao visitar Auschwitz e Birkenau eu percebi o que é a inversão de toda esta lógica. O que é ver os nossos movimentos castrados pelo simples facto de existirmos e independentemente de termos feito o que quer que seja que justifique essa prisão. Milhões de pessoas, entre judeus, ciganos, comunistas, soldados, homossexuais, políticos e intelectuais, são privados da mínima forma de liberdade pelo facto de apenas existirem, e por conseguinte verem-se privados também de qualquer possibilidade de auto-defesa. Tão ilógico quanto entrarem na minha casa e dizerem-me que devo morrer porque tenho os olhos castanhos.

Não vou relatar a experiência toda naquele que é hoje em dia um Museu dedicado às vítimas do Holocausto nazi. De auscultadores e acompanhados por uma guia chamada Martha, fomos percorrendo os caminhos onde há poucas décadas milhões de pessoas perderam a vida da forma mais agoniante possível e recorrendo a técnicas de tortura do mais requintado que há memória. Percorremos as celas, algumas onde não era possível o prisioneiro deitar-se, outras em que não entrava oxigénio (celas de asfixia), o hospital (onde os doentes eram tratados apenas com água quente e chá e onde o Dr. Mengele fazia as suas experimentações em gémeos e pessoas vivas), os corredores onde faziam chamadas que duravam 14 horas ao frio, à fome e sem poderem sentar-se, os expositores de toneladas de cabelo cortado à pressa aos recém-chegados, onde uma trança de cabelo branco ficou na minha memória, juntamente com as próteses, os brinquedos, os óculos, os tachos e as roupas...

Estivémos também em Birkenau, onde o comboio chegava e os prisioneiros eram separados entre aqueles que continuariam e os que eram imediatamente conduzidos às câmaras de gás; vimos os crematórios, as salas onde os nazis despejavam o Zyclon B que lentamente matava as dezenas de pessoas comprimidas; vimos os dormitórios, onde tábuas de madeira eram camas de dez pessoas, que proibidas de utilizar a casa de banho faziam ali mesmo as suas necessidades e tentavam proteger-se dos ratos, que tendo perdido o medo aos humanos tratavam de os roer, muitas vezes até à morte.

É impossível, de facto, ficar alheio àquele lugar. Particularmente, a causa dos judeus não me é muito próxima: não tenho nenhum familiar directamente envolvido no Holocausto e este afastamento geográfico e cultural não me deixavam perceber o quanto iria ficar emocionado ao visitar Auschwitz e Birkenau.

Foi também um importante fechar destas férias pelo Leste: o facto de perceber que a Europa, embora seja só uma, tem em si realidades diametralmente opostas. De um lado estamos nós, que gozamos com a liberdade, que nos atrevemos a dar ouvidos a pessoas políticas que nos enchem com a sua demagogia e com a sua falta de vergonha, que não receamos que este nosso modo de vida faustoso, que faz lembrar as orgias romanas, tão empanturrados estamos na nossa certeza de que o mundo não vai nunca mudar e que nós poderemos continuar a desprezar a História, a arriscar não votar, ou votar em quem advoga precisamente o reiniciar do crédito à marcação de diferenças entre as pessoas. Porque somos tão certos da nossa grande conquista, vamo-nos afogando na necessidade de prestar mais atenção às vedetas de Hollywood do que à nossa própria família: afinal, nunca nenhum soldado das SS a irá levar para um campo de concentração. Vamos substituindo os sorrisos, as noites de abraços e as manifestações de carinho e afecto por tardes inteiras absortos pela televisão, ou a saltitar de loja em loja num centro comercial: afinal, nunca nos separarão das pessoas de quem gostamos e por isso para quê mostrarmos afecto se elas estarão sempre lá para nós...

E do outro lado da Europa, povos inteiros que sabem que, de facto, a vida pode mudar de um momento para o outro. Para melhor e, mais provavelmente, para pior. Ao atravessar aquele campo de concentração, que é do tamanho de uma freguesia inteira da cidade do Porto, fui-me apercebendo da vontade que tinha, naquela altura, de dizer a todas as pessoas que eu amo o quanto realmente as amo. E embora isto agora, quilómetros de distância passada daquelas paredes que pedem "Silêncio!", possa parecer desajustado e piegas, garanto-vos... nunca fez para mim tanto sentido!