Ouvia outro dia na televisão uma habitante da antiga Alemanha de Leste dizer que tem em vantagem relativamente aos ocidentais o facto de saber que, de um dia para o outro, a vida pode mudar radicalmente. De facto, nós damos tudo por garantido e achamos que o nosso modo de vida, como sempre o conhecemos, não irá nunca sofrer alterações até ao fim da nossa existência. Alterações de fundo, quero eu dizer: seremos sempre cidadãos relativamente livres, relativamente respeitados pelas forças de segurança, com um bem-estar razoável que nos fará, com 99% de certezas, nunca passar frio ou fome, nunca estarmos sujeitos a tortura e conseguirmos, uns melhor que outros, viver o nosso dia a dia com uma considerável dose de felicidade, partilhando-a com as pessoas de quem gostamos. As nossas adversidades, como a doença, não são vontade expressa de ninguém- acontecem por infortúnio e não existe realmente ninguém a quem possamos atribuir a culpa.
A nossa felicidade é, penso eu, construída pelo facto de gozarmos de liberdade suficiente para nos movermos num espaço, sem que as nossas acções, desde que enquadradas num âmbito legal unanimemente aceites, possam ser castradas. Eu posso, de facto, sair de casa e comprar comida, visitar um amigo, falar com a minha família, vestir a roupa que entender, escrever o que me passar pela cabeça, viajar por todo o país e por todo o mundo. Posso dançar, posso ficar quieto, posso conduzir, usar as coisas que compro, observar a Natureza ou ficar o dia todo pasmado a ver televisão. Isto porque não fiz nada que justifique a minha prisão.
Ao visitar Auschwitz e Birkenau eu percebi o que é a inversão de toda esta lógica. O que é ver os nossos movimentos castrados pelo simples facto de existirmos e independentemente de termos feito o que quer que seja que justifique essa prisão. Milhões de pessoas, entre judeus, ciganos, comunistas, soldados, homossexuais, políticos e intelectuais, são privados da mínima forma de liberdade pelo facto de apenas existirem, e por conseguinte verem-se privados também de qualquer possibilidade de auto-defesa. Tão ilógico quanto entrarem na minha casa e dizerem-me que devo morrer porque tenho os olhos castanhos.
Não vou relatar a experiência toda naquele que é hoje em dia um Museu dedicado às vítimas do Holocausto nazi. De auscultadores e acompanhados por uma guia chamada Martha, fomos percorrendo os caminhos onde há poucas décadas milhões de pessoas perderam a vida da forma mais agoniante possível e recorrendo a técnicas de tortura do mais requintado que há memória. Percorremos as celas, algumas onde não era possível o prisioneiro deitar-se, outras em que não entrava oxigénio (celas de asfixia), o hospital (onde os doentes eram tratados apenas com água quente e chá e onde o Dr. Mengele fazia as suas experimentações em gémeos e pessoas vivas), os corredores onde faziam chamadas que duravam 14 horas ao frio, à fome e sem poderem sentar-se, os expositores de toneladas de cabelo cortado à pressa aos recém-chegados, onde uma trança de cabelo branco ficou na minha memória, juntamente com as próteses, os brinquedos, os óculos, os tachos e as roupas...
Estivémos também em Birkenau, onde o comboio chegava e os prisioneiros eram separados entre aqueles que continuariam e os que eram imediatamente conduzidos às câmaras de gás; vimos os crematórios, as salas onde os nazis despejavam o Zyclon B que lentamente matava as dezenas de pessoas comprimidas; vimos os dormitórios, onde tábuas de madeira eram camas de dez pessoas, que proibidas de utilizar a casa de banho faziam ali mesmo as suas necessidades e tentavam proteger-se dos ratos, que tendo perdido o medo aos humanos tratavam de os roer, muitas vezes até à morte.
É impossível, de facto, ficar alheio àquele lugar. Particularmente, a causa dos judeus não me é muito próxima: não tenho nenhum familiar directamente envolvido no Holocausto e este afastamento geográfico e cultural não me deixavam perceber o quanto iria ficar emocionado ao visitar Auschwitz e Birkenau.
Foi também um importante fechar destas férias pelo Leste: o facto de perceber que a Europa, embora seja só uma, tem em si realidades diametralmente opostas. De um lado estamos nós, que gozamos com a liberdade, que nos atrevemos a dar ouvidos a pessoas políticas que nos enchem com a sua demagogia e com a sua falta de vergonha, que não receamos que este nosso modo de vida faustoso, que faz lembrar as orgias romanas, tão empanturrados estamos na nossa certeza de que o mundo não vai nunca mudar e que nós poderemos continuar a desprezar a História, a arriscar não votar, ou votar em quem advoga precisamente o reiniciar do crédito à marcação de diferenças entre as pessoas. Porque somos tão certos da nossa grande conquista, vamo-nos afogando na necessidade de prestar mais atenção às vedetas de Hollywood do que à nossa própria família: afinal, nunca nenhum soldado das SS a irá levar para um campo de concentração. Vamos substituindo os sorrisos, as noites de abraços e as manifestações de carinho e afecto por tardes inteiras absortos pela televisão, ou a saltitar de loja em loja num centro comercial: afinal, nunca nos separarão das pessoas de quem gostamos e por isso para quê mostrarmos afecto se elas estarão sempre lá para nós...
E do outro lado da Europa, povos inteiros que sabem que, de facto, a vida pode mudar de um momento para o outro. Para melhor e, mais provavelmente, para pior. Ao atravessar aquele campo de concentração, que é do tamanho de uma freguesia inteira da cidade do Porto, fui-me apercebendo da vontade que tinha, naquela altura, de dizer a todas as pessoas que eu amo o quanto realmente as amo. E embora isto agora, quilómetros de distância passada daquelas paredes que pedem "Silêncio!", possa parecer desajustado e piegas, garanto-vos... nunca fez para mim tanto sentido!