Não ando com tempo nem para esticar os braços como deve ser. É bom sinal, sinal de que há trabalho, que se não houvesse é que era mau. E, como tal, tenho-me desleixado bastante nesta tarefa de escrever aqui as minhas considerações sobre a vida - já se sabe que nestas alturas de corre-corre, há sempre algo que cai por terra. No meu caso, foi a assiduidade bloguiana.
Mas não quis de, muito rapidamente, dar o meu bitaite sobre as eleições que aí vêm a correr. Será a primeira e última vez que escrevo a este respeito: tal como alguns camaradas meus, também eu estou a ficar cansado de fazer sermões aos peixinhos. O povo é ceguinho, já se sabe, e nem depois de levar muito na cabeça tem um rasgo de consciência que faça com que a gente saia desta morrinha cansativa em que transformámos a Democracia.
Nestas eleições existem cinco partidos com capacidade real para continuar a ter representação parlamentar. CDS, BE, CDU, PS e PSD. Destes, só o PS e o PSD poderão ganhar e, se nenhum deles conseguir mais de 116 deputados, terão que se coligar a alguém, sob pena do nosso Presidente não dar posse a um governo minoritário.
Comecemos então pelos grandes partidos: PSD e PS. Hoje em dia, não existe qualquer diferença significativa entre os dois. E isto não é só discurso da treta, é ciência política. São os dois partidos catch-all, ou seja, não tendo um quadro ideológico fundamentado, o partido orienta-se para a eleição e procura agradar ao maior número de eleitores possível, de forma a assegurar a sua eleição. Uma vez no governo, caem por terra as promessas de campanha e o partido passa a seguir um programa completamente alheio ao que apresentou no acto eleitoral. O partido chatch-all é o partido do Marketing Político levado ao exagero, da campanha ensaiada, do culto do líder e da sua imagem.
Votar no PS ou no PSD, em termos práticos, é a mesma coisa: uma vez no governo, tanto um como outro honrarão as políticas que têm vindo a ser seguidas desde os anos oitenta e que, como se viu, deram cabo deste país. Nada mais simples do que isto: foram estes dois partidos que, seguindo políticas mais ou menos parecidas, conduziram Portugal à pré-falência, obedecendo escrupulosamente aos requisitos da banca, das grandes empresas e do estrangeiro, deixando o país entregue a caciques, jogos de poder, corrupção e um imenso pântano de ideias. E, ainda assim, o povo não vê necessidade de alterar este ciclo doentio.
Têm diferenças pontuais, claro: o PS, por ter a palavra socialismo no nome, ainda tem algum pudor em admitir o fim do estado social (embora, depois, na prática, é isso que faz), enquanto o PSD não tem este "problema" ideológico em desenvencilhar-se de certas matérias da solidariedade nacional. Diria que o PS é um nadinha melhor mas depois há o Sócrates, essa abominável personagem fabricada em empresas de comunicação, alimentada pelos grandes interesses e poderes e cujo objectivo de vida é conseguir uma cadeira com vista para a montanha, lá em Bruxelas. O Passos Coelho parece-me mais bonzinho, sem dúvida. Acho que se ambos estivessem num barco a naufragar juntamente com uma velhinha, o Passos Coelho atirava-a para o bote de salvação, enquanto o Sócrates não só a convencia que era melhor para ela ficar no barco a naufragar, como ainda a faria agradecer-lhe por isso e dar-lhe uma beijoca na cara.
Entre os dois, assim à partida, diria que o Passos Coelho é melhorzinho.
Mas depois há as companhias e aí a balança fica desregulada. O Passos Coelho tem um ar um bocado songa monga demais. Vão comer-lhe as papas na cabeça. Já estou a ver aquela corja de sociais democratas (é o partido da Leonor Beleza, não esquecer), a passar por cima do primeiro ministro e ir refastelar-se em cadeiras milionárias.
Daí dizer que, entre os dois, que venha o Diabo e escolha.
Porque pior que ambos ainda há outro. O Portas. Mal seria de nós se um dia aquele homem fosse primeiro-ministro mas corremos sérios riscos de o ter outra vez como ministro, a comprar submarinos e tal. O Portas é execrável, é tudo o que um ser humano não deveria fazer em política. Já não falo da catrefada de mentecaptos que vem atrás dele, a opor-se ao casamento homossexual, à interrupção voluntária da gravidez e a outras liberdades individuais. O CDS é o partido daqueles senhores que vão às touradas e à caça, que acham que os animais não têm direitos. Das meninas que usam peles e são muito religiosas. Mas numa forma de ser religioso diferente das velhinhas da aldeia: são religiosas para que possam ser preconceituosas, para que possam estereotipar e condenar. São as que têm nojo dos pobrezinhos, as que vivem à custa do papá e as que não se importam nada de se referir a alguém como "o preto", "o maricas" ou "o pobre".
E a encabeçar esta gente toda está o Portas: ele é tão mau ou pior que o seu eleitorado. Ao contrário do que diz a sua campanha política, ele está-se nas tintas para os velhinhos das feiras e para os agricultores. "Não bate a cara com a careta." Utiliza argumentos chamativos em campanha, de forma a conquistar o voto das classes baixas, mas uma vez no governo só tomará medidas que beneficiam a classe alta, os ricos, os grandes empresários e o grande capital. Cuidado com eles, são o partido que mais vai crescer no dia 5 de Junho e isso é sinal do quanto o povo se quer ligar a falsos salvadores da pátria: foi assim que tudo começou, algures nos anos 30 da História da Alemanha...
O Bloco de Esquerda foi o partido em que sempre votei, desde que ele existe, claro. É uma alternativa viável, com propostas práticas e credíveis para dar um novo rumo ao tipo de política que o país segue. Mas noto um certo cansaço por parte dos seus principais líderes, assim como uma demasiada personificação em torno do Louçã. Gostava de voltar a ver algumas das caras do BE. Desta vez não terão o meu voto mas reconheço, pelo que li do seu programa e pelo que tenho visto da campanha eleitoral, que gostava de ver alguns bloquistas no governo. Inspiram-me confiança, ainda que demonstrem claramente um certo cansaço.
A CDU é um projecto. O que diferencia o PCP de todos os outros partidos é a ideia de que estes estão a construir um projecto diferente, que não passa apenas por uma mudança de personalidades mas passa por uma mudança estrutural na forma como conhecemos a governação e a organização da democracia. Pode não ser a correcta mas por enquanto isso ainda não sabemos pois nunca foi posta em prática. E não, não vamos comparar o PCP com o Ceausescu ou com o Mao TseTung. Passo a explicar porquê: o PCP engloba-se numa família de partidos da esquerda que vai buscar ao Eurocomunismo a sua orientação política. O Eurocomunismo é voltado para a instalação de um sistema democrático, com as liberdades individuais asseguradas, assim como a economia de mercado. Associar o PCP à Coreia do Norte ou às FARC é tão idiota quanto associar a direita parlamentar ao Hitler. Faz parte de um argumento bacoco: há muito (20 anos...) que o PCP se reformulou, procurando encetar a via democratizante. Além disso, não esqueçamos que sem PCP muito dificilmente viveríamos hoje em liberdade.
Mas considerações destas à parte, a motivação de um voto na CDU tem mais a ver com a ideia de que estamos a contribuir para a construção de um projecto de mudança. Nenhum dos outros partidos é tão claro ao afirmar que é preciso mudar, cortar com uma determinada ordem estabelecida e começar a pensar nas coisas de forma diferente.
Porém, não é em nenhum destes que vou votar desta vez. Há outra alternativa, nem à direita nem à esquerda, mas que me fala ao coração. O PAN - Partido pelos Animais e Natureza. Claro que não espero que o partido tenha qualquer intenção governativa mas gostava de ver pelo menos uma voz na Assembleia da República a defender os animais. Já não sei quem dizia que o nível de civismo de determinada sociedade vê-se pela forma como estes tratam os seus animais e isto está certíssimo. Se formos capazes de tratar bem os membros mais indefesos da nossa sociedade, estamos a contribuir para uma sociedade mais solidária e mais justa. No Norte da Europa, lá onde as coisas correm bem, há vários partidos deste género com assento parlamentar: partidos que não têm aspirações governativas mas que querem ser uma voz dentro de um espaço de decisão a apelar pela defesa de um determinado grupo. Sejam as mulheres, os gays, os deficientes, as crianças, a natureza e os animais... cada vez mais a política deveria ser direccionada para um público específico, contrariando a tendência catch-all de partidos que não falam para ninguém a não ser para dentro deles próprios.
Por estar a mil à hora com trabalho, não vou poder fazer qualquer tipo de campanha por este partido. Mas deixo aqui a sugestão de um voto diferente, verdadeiramente útil para dar representação a quem, de outra forma, não tem qualquer protecção. Ainda que os animais não representem uma figura jurídica (tal como há muitos inimputáveis que não votam, por exemplo), votar num partido como o PAN é direccionar o voto e torná-lo útil.
Enquanto tudo isto não melhora e não há uma revolução que ponha tudo a mexer dali para fora, esta é uma forma de não ficar à espera da mudança de braços cruzados.
2 bandeirinhas no ar:
Gostei deste post. Não sabia da existência do PAN. Mas, independentemente da escolha, gostava que toda a gente refletisse sobre o seu voto durante pelo menos metade do tempo que tu fizeste.
Claro, a ideia é mesmo essa, reflectir um bocado antes de pôr a cruz num sítio apenas por "tradição" ou conveniência.
O PAN é muito recente, penso que nasceu em Janeiro deste ano. É um tipo de partido que já existe há muitos anos noutros países: dirigido para um grupo muito específico de questões. E pode fazer a diferença: há uns anos o Guterres não tinha maioria absoluta por um deputado.
Obrigado pelo comentário!
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