3.5.11

A pequena grande lição de História que se impõe.

Para explicarmos o anúncio do assassinato (não queria usar este termo mas não foi captura e não existe outra palavra para "alguém matar alguém") de Osama Bin Laden temos que mergulhar na História do Séc. XX e mais precisamente ao conturbado período da Guerra Fria. Vou procurar explicar o meu ponto de vista e pôr de parte todo o linguajar técnico para que fique o mais simples possível. Não desfazendo a sagacidade interpretativa dos meus leitores mas, há coisas que de tão complicadas que são, mais vale fazê-las simples.

A Guerra Fria é o período compreendido sensivelmente entre o final da 2ª Guerra Mundial (1945) e a extinção do Pacto de Varsóvia (1991). Durante esse período, o mundo estava dividido entre sociedades capitalistas (encabeçadas pelos EUA) e sociedades socialistas (encabeçadas pela União Soviética). As duas grandes super-potências mundiais disputavam entre si pela hegemonia a vários níveis: militar, com a constante ameaça nuclear; territorial, com a influência em países recentemente descolonizados; cultural, com a propagação, por um lado, da cultura americana e, do outro, da cultura russa; económico, com o capitalismo e o comunismo a imporem modos de organização económica e financeira diferentes ou político, com a suposta democracia de um lado e a também suposta ditadura do proletariado do outro (este é o ponto mais discutível mas não tem nada a ver com que quero dizer).

Porém, o que interessava mesmo, nesta altura, era a guerra. Em vários locais houve, neste período, conflitos armados, tornando-se esta numa guerra muito pouco fria na Coreia, no Vietname, no Panamá, em Cuba, etc., na esmagadora maioria das vezes com a vitória das forças apoiadas pela União Soviética. Nesta altura, o comunismo era aceite globalmente como doutrina política e tudo parecia apontar para o fim da opressão capitalista e para a vitória do socialismo que conduziria, naturalmente, ao comunismo. Existiam nesta altura dois grandes blocos militares de países, ou melhor, de exércitos: a Otan (NATO), ocidental, liderada pelos EUA e o Pacto de Varsóvia, oriental, liderada pela URSS.

O mundo estava claramente dividido em zonas de influência: a América latina e a Europa ocidental e a Oceania sob a alçada americana (e daí Cuba ser tão incómoda para os EUA); a Europa oriental, o Cáucaso e parte do Médio Oriente sol a alçada russa; a Ásia impenetrável devido à hegemonia da China na região (ainda hoje ninguém se atreve a chegar militarmente à Coreia do Norte, autêntico protectorado chinês) e África, um terreno por desbravar depois de ser descolonizado e palco de guerras sangrentas, onde quer americanos quer russos impuseram ditaduras hediondas que mataram milhões de pessoas e cuja repercussão ainda se sente hoje (Zimbabué, Ruanda, Uganda, Guinés and so on).

O mundo vivia assim numa paz gélida, como se fosse um rastilho prestes a explodir de cada vez que se pensasse em alterar este frágil equilíbrio. Isso chegou a acontecer quando os americanos quiseram colocar mísseis na Turquia (aliada americana) apontados a Moscovo, quando os soviéticos puseram mísseis em Cuba ou quando estes cercaram Berlim. Tanto EUA como URSS eram mauzinhos mas sem dúvida (e vários historiadores como Eric Hobsbawm confirmam-no) eram os EUA e a Otan que tinham uma ânsia belicista muito superior: ainda hoje se crê que caso o Nikita Kruschov não tivesse voltado atrás, o Kennedy tinha mesmo avançado com mais bomba atómica quando foi a Crise de Cuba. E mesmo no Vietname ou na Coreia, foram os americanos que iniciaram os confrontos.

Mas tudo isto acabou no final dos anos 80 e no início dos 90. Com a promessa de um crédito bancário por parte do Ocidente, para desenvolver uma economia onde o essencial era garantido mas o supérfulo não, a Hungria abriu parte da Cortina de Ferro à Áustria e por aí escoaram os primeiros milhares de pessoas, que passaram a ser centenas de milhares quando os alemães de leste descobriram a brecha. Depois, foi como um castelo de cartas a ruir: a solidez da união socialista do leste da Europa desfez-se perante as promessas ocidentais de dinheiro, muito dinheiro. Juntando a isto uma URSS sacrificada por uma crise sem precedentes, envolvida numa guerra sem sentido no Afeganistão (onde havia um grupo rebelde, os talibãs, patrocinados pelos EUA)e com uma liderança fraca por parte de Gorbachov, tudo se desmoronou e o sonho de Marx e Lénine passou a ser apenas uma lenda na História da Europa.

Claro que muito mais haveria a dizer perante o fim do socialismo na Europa (e friso, na Europa, porque em mais nenhum lugar do globo ele terminou, antes pelo contrário). Foi muito menos uma revolução do povo do que o que querem fazer crer: claro que as economias dos satélites de Moscovo falhavam, após décadas de crescimento exponencial (na ordem dos 7, 12, 20%) e isso se devia, como agora, à impossibilidade de fazer face à imensa dívida externa contraída no exterior. O carácter autoritário dos líderes não ajudava à festa e o desvio completo em relação ao rumo marxista original também não. Mas não foi por aí que a coisa cedeu: não há líderes mais autoritários que os sauditas, os norte-coreanos ou da Suazilândia e não é por isso que deixam de existir.

Mas adiante. A verdade é que da Guerra Fria quem saiu triunfante foram os EUA: tinham agora uma mão bem cheia de países para impor o seu capitalismo agressivo, para emprestarem dinheiro a rodos e exigi-lo vinte vezes mais caro e uma legião de pessoas ceguinhas para fazer-lhes créditos e comprar, comprar, comprar. E para produzir, claro, a salários absurdos. Hoje em dia esse sistema de organização imposto pelos EUA falhou redondamente, e grande parte dos países então absorvidos regressam a políticas de esquerda e voltam a privilegiar as dinâmicas sociais.

Mas o facto é que, posto o fim da Guerra Fria, dissolvido o bloco militar que fazia frente à Otan, esta deixou de ter uma razão de existir. O comunismo estava aniquilado onde interessava, na Europa, a Rússia era então governada por um bêbedo, o Ieltsin, a China abria o mercado à iniciativa privada (e assim sendo não havia razão para lhe fazer frente), África era finalmente dominada depois de as tropas outrora financiadas por Moscovo desertarem e a América continuava com vários regimes-marioneta controlados pelos EUA. Mas era preciso manter a ideia de domínio americano sobre o mundo e, não esqueçamos, o país é financiado desde o início do séc. XX pela indústria da guerra: havia a necessidade de manter os americanos motivados para a defesa, dispostos a pagar impostos para financiar a guerra e, acima de tudo, manter países e sociedades inteiras interessadas em comprar arsenal bélico, ou melhor, a endividarem-se com os EUA para poder comprar arsenal bélico.

Daí ao choque de civilizações foi um instante. Respondendo a Fukuyama, que no seu livro The End of History and the Last Man vaticinava em 1990 o fim da História com o fim da Guerra Fria, na medida em que a partir de então o mundo viveria em paz, com uma ideologia dominante e dominadora e a História é feita de conflitos e de dinâmicas, Samuel Huntington escreveu O Choque de Civilizações?, em 1993, propondo a ideia de que o que a História assistiria a partir de então seria a conflitos entre civilizações e não entre ideologias. Um dos artigos que lhe sugere o tema é As Raízes da Ira Muçulmana, de Bernard Lewis.

Claro que é tudo uma imensa e global treta. Depois da Guerra Fria e nos vinte anos que se seguiram não houve qualquer grande conflito inter-civilizacional a não ser um: o que opõe norte-americanos a árabes. As raízes da teoria de Huntington são porventura tão perigosas quanto as do III Reich mas dão matéria de justificação para a permanência da Otan na cena mundial e para a manutenção da ideia de que os EUA precisam de nos proteger do mal. Numa altura em que os comunistas foram vencidos e se tornaram uma piada excêntrica focalizada em determinados grupos facilmente identificáveis e estanques, nada melhor do que um medo muito maior: uma civilização inteira, altamente desconhecida do mundo ocidental, com fama de guerrear vitoriosamente ao longo da História e mesmo aqui às portas da Europa. Descritos consecutivamente pelos média americanos como tiranos, governados por déspotas e anti-democratas, ultra-religiosos (como se os próprios americanos não o fossem), disponíveis para matar por Alá, mal tratantes dos membros frágeis da sociedade, como as mulheres e odiosos de ocidentais e judeus, os árabes eram a civilização perfeita para servir de justificação à permanência da necessidade de protecção americana por parte da opinião pública.

Ainda para mais, calhou de lá estarem as maiores reservas de petróleo no mundo, vá-se lá compreender porquê. Mas a isto seria preciso acrescentar algum medo e o fundamentalismo religioso surgiu no dicionário pela primeira vez, passando a significar o mesmo que árabe. Julgar o povo árabe, constituído por cerca de 300 milhões de pessoas, com uma diversidade étnica que vai da Indonésia a Marrocos, do Paquistão ao Sudão, pelos feitos de uma minoria fundamentalista cuja constituição abarca, segundo os próprios americanos, entre 500 e 1000 militantes, é absurdo. Conhecendo vários países árabes não lhes noto mais fundamentalismo religioso que qualquer peregrinação a Fátima compreenda, nem mais vontade de impor a sua religião do que qualquer colégio de freiras. Julgar todo o mundo árabe pelos atentados horripilantes levados a cabo por uma minoria é como pensar que todos os espanhóis pertencem à ETA.

Mas as décadas têm-se passado e a validade da supremacia americana não é posta em causa: na ex-Jugoslávia, no Afeganistão, no Paquistão, no Iraque, na Líbia, todas as intervenções são realizadas à revelia dos poderes locais, perante a justificação de uma caça ao terrorista que implica a chacina de centenas de milhares de civis e a deposição de regimes autoritários que, não sendo diferentes doutros, do género, por esse mundo fora, constituem marcos estratégicos importantes para a imposição norte-americana. No sub-solo do Afeganistão há as maiores reservas mundiais de Lítio (utilizado para baterias de telemóveis ou computadores portáteis), o Iraque tem a quarta maior reserva de petróleo do mundo (a seguir à Arábia Saudita, Canadá e Irão) e todo o Médio Oriente possui características riquíssimas: quanto mais não seja, uma série de mercados abertos para escoar a produção excedentária.

Não quero passar a ideia de que os EUA são os maus e todos os outros os bonzinhos: quero apenas mostrar que não são melhores que os outros. Sofreram na pele um atentado que vitimou 3 mil pessoas e foi dos actos mais bárbaros alguma vez cometidos na História. Ou talvez não. Talvez seja igualmente bárbara a contaminação de aldeias inteiras por petrolíferas americanas na selva amazónica. Ou os efeitos das bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki em segundas e terceiras gerações de japoneses. Ou a invasão do Vietname, com 4 milhões de mortos civis ou o descalabro iraquiano, onde George Bush foi responsável pela morte de, contas por baixo, 150 mil civis, apenas menos 50 mil que o seu inimigo Saddam Hussein.

Não quero, portanto, desgraçar a fama dos EUA: apenas juntá-los ao rol dos países que não se importam nada de matar civis. Tal como os fundamentalistas islâmicos, essa seita da qual Bin Laden era o líder. Um líder agora muito apagado, escondido, sem poder de contactar os seus guerreiros, mas que foi mentor de extermínios dignos dos piores filmes de terror. Não me parece que devesse ter sido morto: mesmo aos piores assassinos, e este era o caso, a democracia diz que se deve organizar um tribunal, um julgamento e uma pena. Considero bizarro que o Prémio Nobel da Paz tenha assistido a um fuzilamento em directo do sofá de sua casa, vindo a público regozijar-se pela ideia de que houve uma morte.

Não quero falar do quanto considero forjadas imagens ou declarações e de como acho que o mentor da Al Qaeda (expressão inventada pelos assessores de Bush) já se encontraria morto há que tempos. Mas o timing foi perfeito, para os americanos. Uma notícia destas há-que dá-la quando dela se retira benefícios imediatos. E esses benefícios são muito mais do que uma vantagem eleitoralista: com a notícia do assassinato de Osama, Obama consegue voltar a fazer com que o mundo inteiro admire a protecção norte-americana e veja como efectiva e eficiente a sua acção onde quer que seja. Numa altura crucial. Numa altura em que o mundo assiste a inúmeras revoltas árabes, essas sim feitas pelo povo e de forma democrática. Numa altura perigosa em que o povo do mundo se diz "árabe por um dia" à medida que os ditadores do Médio Oriente, todos eles patrocinados em armas e dinheiro pelos EUA, vão caindo um após o outro, qual peças de dominó, pelas mãos de um povo que não mata, não fundamentaliza a raiva nem cria deposições postiças, como a que tirou Saddam do poder.

O mundo inteiro tinha os olhos postos no Médio Oriente pelos motivos que não interessavam aos EUA: observavamos-lhes a ânsia de democracia e a forma pacífica com que levavam a cabo a retirada de poder aos ditadores, sem qualquer ajuda externa. Nas ruas das arábias, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças, derrubavam poderes sentando-se em praças e, tal como noutras revoluções que conhecemos, os exércitos colocavam flores nas bocas dos tanques de guerra. Era uma imagem que não condizia com aquela que nos pintaram sobre eles.

Isso não agrada. Era preciso voltar a mostrar o inimigo, voltar a atiçar a fera para que o receio de maiores perigos voltasse à tona. Não vou ao ponto de achar que tudo foi feito para que daqui a uns dias se despenhasse um avião aí algures- isto já seria exagerar. Mas quer Obama, quer Bush, quer Clinton e todos os outros, já avisaram: "Matámos o líder mas não matámos os seus seguidores." Continuamos a necessitar da sua protecção, continuamos gratos por estar debaixo da sua alçada e, acima de tudo, continua a haver uma justificação para que em nome da paz se façam as maiores e mais perigosas barbaridades no mundo.

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