Acontece-me algumas vezes de ser comido por lorpa. Passo a explicar a expressão, que sei que é uma coisa nortenha. Lorpa (ler lôrpa) é aquela pessoa a quem, amiúde, comem as papas na cabeça. O crente. O pató.
Não é em muita coisa: numa argumentação, por exemplo, ninguém faz de mim lorpa, nem com negociatas, nem a impingir produtos em lojas ou a achar que me enganam com mentirinhas de trazer por casa. Não é por isso que me comem por lorpa. Normalmente isso acontece em questões relacionadas com dinheiros e o pânico que tenho em ficar a dever.
Desde muito miúdo que me ensinaram que dever dinheiro é feio. É feio dever contas ao Estado e às empresas mas mais feio ainda é dever dinheiro aos amigos e à família. Isso então é, segundo os que (bem) me educaram, mesmo muito feio.
Tal como é feio não perguntar à pessoa que nos dá boleia se quer uma ajudinha para a gasolina, ou ficar pasmado a ver a pessoa pagar o parque sem perguntar se precisa de uma contribuição ou passar pelas portagens sem perguntar quanto foi. Ou entrar num táxi sem dinheiro para pagar a viagem na totalidade, ainda que sabendo que os outros dirão para dividir por partes iguais. Ou ir a um jantar em casa de amigos de mãos a abanar, sem tentar saber de antemão se é preciso levar alguma coisa. Ou entrar num presente em conjunto sem nunca dar a sua parte na coisa, ficando com os louros sem ter gasto um tusto.
Não diz grande coisa da seriedade e do civismo de quem o faz. E deixa quem é comido por lorpa com aquela sensação estranha... de que o estão a comer por lorpa.
Eu percebo o thrill: dá um jeitão ser outro otário a gastar dinheiro por serviços dos quais nós também usufruímos. Mas as coisas não se constroem assim. Não dura sempre. Geralmente, das vezes em que fui comido por lorpa, não disse nada. Mas deixei de fazer programas com os espertalhões.
É que a diferença está na atitude: o mais certo, pelo menos da minha parte, é dizer "deixa lá, pagas para a próxima!" Mas cai bem, sobretudo entre amigos, onde deve haver uma relação de igualdade suficientemente grande para que não haja a sensação de que um se aproveita do outro.
Deixemos isso para o Renato Seabra. Ou melhor, deixaríamos isso para o Renato Seabra, caso ele não tivesse ido parar à choça.
3 bandeirinhas no ar:
Essa expressão também se usa lá em baixo (mas dizemos «lórpa»). :P
Sei exactamente do que falas. Há gente para quem ser crava é desporto.
Sim, e o à vontade com que o fazem é trabalhado ao máximo. Fazem-nos sentir que não é mais do que a nossa obrigação servi-los. E com gratidão.
«Obrigado, meu amo e senhor, por me permitires que te pague o táxi».
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