10.6.11

Chegando ao Oriente

Embora tenhamos saído de Portugal no dia 23 de Maio às 8 da noite, a verdade é que só chegaríamos ao hotel de Osaka, nossa primeira paragem em território japonês, no dia 25 às 5 da tarde locais. Chegar ao Oriente é penoso, até para mochileiros experimentados como nós.

A primeira paragem já começa a ser um hábito instalado: é como passar na free shop antes de qualquer voo intercontinental. Madrid. Mas desta vez com um tempero extra e que era a visita ao acampamento dos jovens espanhóis na Puerta del Sol. O que, confesso, me deixou espantado e maravilhado. A Puerta del Sol, quilómetro zero das estradas espanholas e centro nevrálgico de toda a Espanha, estava irreconhecível: qual praça Tahrir, o Sol estava coberto por uma mancha imensa de letreiros gigantes exigindo uma mudança efectiva no tipo de Democracia praticado em Espanha. Tipo esse que é basicamente o mesmo que se faz em Portugal: a submissão vexante aos grandes grupos económicos, o desprezo pela contabilização da abstenção, o despesismo público e, em linhas gerais, o desvirtuar acéfalo dos valores democráticos.

 A entrada do metro Sol estava irreconhecível, com todas as mensagens de mudança e protesto.

Se estivessem em português, todos aqueles slogans se aplicariam perfeitamente à nossa realidade. Mas o impressionante era a organização daquela massa imensa de jovens, que criaram uma autêntica cidade debaixo das lonas que cobriam a praça. Havia cantinas, webcafés, um posto de primeiros socorros, os centros de debate, a recolha de lixo organizada e uma imensidão de ideias a serem discutidas e a obterem a adesão de uma cidade inteira e não apenas dos mais novos. Ideias concretas, propostas específicas e exequíveis de mudança para uma sociedade mais justa.

Mesmo à uma e tal da manhã de uma segunda-feira, milhares de pessoas manifestavam-se na Puerta del Sol.

Se lhes ligaram alguma coisa? Claro que não. Tal como em Portugal, também a classe dominante espanhola habita numa supraestrutura onde os protestos deste género não chegam. Os centros de decisão, colocados nas reuniões dos accionistas das grandes empresas, estão longe do povo e mais longe ainda das suas reivindicações. Foram tratados, tal como cá, como um bando de brincalhões, muito embora no acampamento não entrasse pinga de álcool e a ordem era uma das mais importantes reivindicações de quem lá estava.

Embora tivessem fechado as montras das lojas internacionais com cartazes de protesto, havia um grande respeito pelos pequenos comerciantes locais.

Penso que, a esta hora, o acampamento ter-se-á desmobilizado, sob pena de se banalizar e que a energia criada naquelas circunstâncias servirá agora de debate e, quanto mais não seja, de exemplo para que os cinzentos engravatados que mandam no país percebam que, por vezes, quem manda nas ruas é o povo.

Quanto a nós, no dia seguinte havia jornada. Madrid, Pequim, Osaka. E o voo teria sido tranquilo e prazenteiro, com a Air China a providenciar-nos espaçosos assentos com televisão e serviço de refeições. Isto, não fosse haver, mesmo no banco à frente, uma criancinha chinesa a chorar e a fazer cocó durante as 12 horas do voo. E como o voo era de dia, só cochilei uma meia horita, entre aqueles filmes idiotas como o 2012 e o Whip It (Drew Barrymore, amiga, tu como realizadora bem que podes atirar-te ao rio) e os exercícios de ginástica de voo, para evitar coágulos nos joelhos .

A nossa curta estadia na China, num aeroporto cheio de tentações a muito baixos preços.

Depois de umas horas de espera em Pequim (num aeroporto de fazer inveja a muitos dos que conheço por esse mundo fora) lá fomos para Osaka, o destino final desta odisseia pelos ares.

Chegar ao Japão é uma sensação única: ao longo da costa japonesa, só se vê cidade. Explico. Quem aterra no Porto vê primeiro o Vale do Sousa e depois a Serra de Valongo. Só depois começa a cidade, muito tímida na zona mais periférica para se tornar depois um emaranhado de casinhas no centro e por fim ir-se dissipando novamente nas fábricas da zona industrial e nos pinhais que para lá há, paralelos ao Oceano Atlântico e antes de o avião aterrar. Pois no Japão não há nada disso: há cidade ao longo de umas boas centenas de quilómetros, enquanto por cima do Oceano Pacífico se vão vendo plataformas construídas para prolongar a cidade pelo mar fora.

O aeroporto de Kansai é, ele próprio, em cima da água e parece que o piloto enloucou e vai atirar-se à água levando-nos a todos desta para melhor. Mas não. Tudo correu pelo melhor e o nosso primeiro contacto com os japoneses aconteceu numa inspecção alfandegária de meter a dos regimes autoritários (cubano, chinês ou norte-americano) num chinelo: tudo nos foi questionado e enquanto não tínhamos o papelinho bem preenchido não havia forma de nos cederem passagem.

Começávamos a aventura na Ponylândia com um cartaz na estação do aeroporto desejando-nos um bom dia.

Este primeiro embate na burocracia japonesa viria a revelar-se uma falsa primeira imagem: de picuinhas e de zelo excessivo aquele povo tem muito pouco. Foi quando, depois de viajar de comboio até ao centro de Osaka, encontrámos o nosso hotel, que percebemos que tudo ali era diferente do habitual: os carros andavam do lado errado da rua, as pessoas esperavam para atravessar no sinal verde e as sanitas tinham um sistema automático para nos limpar o rabiote.

Limpar o rabiote, limpar as frentes das senhoras, secar, regular a pressão e a temperatura da água.

Estávamos, definitivamente, no Japão.

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