20.6.11

Hiroshima, meu Amor

Estaria ainda por chegar um dos momentos mais impressionantes da nossa estadia no Japão. Hiroshima, a cidade que se seguiu a Osaka, é a principal cidade da região de Chugoku e tem actualmente mais de um milhão de habitantes.

No dia 6 de Agosto de 1945, às 8h15 da manhã, morariam em Hiroshima cerca de 340 mil pessoas. Dessas, 80 mil morreriam instantaneamente nesse minuto. Outras tantas morreriam até ao final desse ano devido a queimaduras graves, doenças relacionadas com a radiação ou falta de assistência médica. Em 2000, uma estatística demonstra que ainda existem casos consideráveis de japoneses doentes, com vários tipos de cancros, decorrentes do ataque aéreo norte-americano com uma bomba atómica que mataria perto de 200 mil pessoas ao longo do séc. XX. Entre elas, 90 por cento dos médicos e enfermeiros de Hiroshima, cerca de 12 mil crianças que tinham sido destacadas para trabalhos forçados no centro da cidade, outras tantas em escolas e colégios da cidade. O principal alvo da bomba atómica ironicamente chamada Little Boy falhou por 200 metros e ao invés de colidir contra a ponte de Aioi, fez explodir 60 quilos de urânio 580 metros por cima da Clínica Médica Shima. À volta, o engenho explosivo devastou cerca de 12 quilómetro de cidade, atingindo sobretudo igrejas, templos, escolas, hospitais e casas de civis.

A antiga Câmara do Comércio e Indústria de Hiroshima era o orgulho da cidade, pela sua arquitectura arrojada. Hoje é Património Mundial da Unesco, conhecida por A Bomb Dome e mantida tal como ficou após o bombardeamento americano.

Nessa manhã, os habitantes de Hiroshima ouviram primeiro os aviões, entre eles Enola Gay (nome dado em honra à mãe do piloto) para depois sentirem apenas um enorme estrondo, para já não verem a imensa bola de fogo gerada pela explosão do urânio, pois tinham sido mortos devido ao impacto da explosão e à subida vertiginosa da temperatura desse centro de fogo, que se fez sentir por dez segundos e provocou um abalo durante cerca de outros 30, sentido ao longo de 11 quilómetros.

Mas poderiam considerar-se sortudas as pessoas que morreram de forma instantânea: pior ficaram as que morreriam nos tempos seguintes, com complicações causadas pelo excesso de radiação. Se os efeitos mais comuns desta exposição eram a queda de cabelo, a diminuição das defesas e os sangramentos, os mais extremos são as cataratas, a leucemia, vários tipos de cancros, microcefalia e infantilismo (estes dois causados a bebés que ainda se encontravam no útero). Algumas das vítimas da bomba atómica (que desenvolveram doenças que iriam ser apelidadas de A-bomb disease pelos médicos) foram ainda voluntários que se prontificaram a ajudar as vítimas e acabaram por padecer, a maioria com cancros da tiróide e dos pulmões.
Monumento às crianças que estavam em trabalhos forçados e foram mortas pelo ataque. Cúpula onde estão sepultadas as cinzas dos corpos encontrados perto do local. Monumento à Paz em Hiroshima.

Visitar Hiroshima impressionou-me mais do que visitar Auschwitz e só eu sei o quanto me impressionou o campo de concentração... Ambas são atrocidades cometidas por loucos contra pessoas indefesas mas choca-me saber que, enquanto no caso dos nazis pelo menos alguns foram julgados e, quanto mais não seja, a opinião pública sabe o quanto eram atrozes, no caso de Hiroshima e Nagasaki, o responsável pelo extermínio de uma população indefesa não só não foi julgado como continua a ser acarinhado pela História como tendo feito um acto libertador. Não está em causa a culpa dos japoneses naquela guerra, que era muita e igualmente reprovável: está em causa a forma como os Estados Unidos (com a anuência dos outros Aliados), resolveram a situação: com um assassinato em massa de civis.

Visitar o Museu Memorial da Paz, em Hiroshima, é uma lição de Humanismo. E, mais uma vez, de como a vida pode mudar da noite para o dia: sendo um povo habituado a catástrofes, os japoneses reconstruiram tudo e, digo eu, é preciso um poder de encaixe e uma humanidade excepcional para conseguir tolerar a tamanha injustiça que foi realizada contra eles nesse dia.

 Pormenores do Museu Memorial da Paz: cartaz à entrada demonstrando o activismo anti-nuclear; uma carta de Einstein aos americanos explicando os malefícios da sua recente descoberta; maquete da devastação em Hiroshima depois do ataque com a bomba atómica.

Há no museu uma explicação realista do que realmente aconteceu: os EUA tinham vindo a investir biliões de dólares na produção de armas de destruição maciça, no Mahnattan Project, ultra-secreto, mas que precisaria do apoio popular assim que se tornasse conhecido. A forma de fazer os americanos apoiar um programa que lhes gastou tanto dinheiro em tempo de guerra foi precisamente utilizar as armas produzidas, fosse onde fosse e custasse o que custasse. Segundo uma carta exposta no museu, os EUA suspeitaram de que a Alemanha quereria vingança e conseguiria-a rapidamente caso fosse esse o país escolhido para o despejo da A-bomb. E como tal viraram-se contra o Japão, um país que à altura era atrasado e não tinha capacidade de resposta rápida. O ataque a Pearl Harbour (perfeitamente legítimo, tratava-se de uma guerra e o que foi atacado foi uma base militar onde não haviam civis) serviu de desculpa. Foram escolhidas cidades-alvo pela quantidade de potencial militar, de entre três ou quatro do sul do Japão. Quanto à decisão final, pasme-se, foi feita pelo bom tempo que se fazia sentir nos céus de Hiroshima àquela altura do dia.

 Mãe protegendo um dos filhos da tempestade nuclear. Monumento com a palavra Paz escrita em todos os idiomas conhecidos.

O Parque Memorial da Paz, em pleno centro de Hiroshima, é mesmo uma lição sobre a Paz: por todo o lado há homenagens às vítimas da bomba atómica, entre as quais uma comovente alusão às crianças que morreram neste ataque. Tive a oportunidade de assistir a um dos momentos mais comoventes desta minha vidinha: ali mesmo em frente à estátua que lembrava que devido a esta barbaridade tantas crianças morreram, grupos de crianças das escolas japonesas iam prestar homenagem, entoando doces cânticos de forma muito sentida, com as maozinhas atrás das costas, o olhar baixo e a voz fina muito alinhada. Mais tarde, no museu, veríamos uniformes iguais aos que estas crianças vestiam mas dessa vez totalmente desfeitos pelo ataque aéreo, pois tinham pertencido a crianças que morreram instantaneamente de queimaduras.

Uma das crianças que não morreu logo foi Sadako Sasaki, que desenvolveu leucemia devido à exposição à radiação. Sadako acreditava que se fizesse mil grous em papel, um hábito japonês de trabalhar o papel (origami) para pedir desejos, ser-lhe-ia concedida a cura. Sadako, embora tivesse feito muito mais de mil grous em papel, não sobreviveu. Hoje, milhares de crianças prestam-lhe homenagem deixando grous em papel perto do monumento às crianças vítimas do ataque norte-americano.

 Crianças entoando cânticos em frente ao Monumento às Crianças Vítimas da Bomba Atómica Little Boy. Os grous em origami: muito mais de mil mas ainda assim menos do que as crianças assassinadas em Hiroshima.

Muitos outros aspectos são impressionantes neste parque e no museu. Como a devastação material, as imagens do antes e depois, a sensação de pânico e a desolação que devem ter sentido aquelas centenas de milhar de pessoas, atacadas de forma tão cruel e com nenhuma possibilidade de escaparem a uma morte que se não foi no momento do ataque, foi lenta, cruel e agonizante.

Mas Hiroshima é também uma cidade notória pela esperança. A esperança num mundo sem armas atómicas e sobretudo a esperança num mundo onde a brutalidade não se possa sobrepor à fragilidade. Entre o horror da destruição e a delicadeza dos bonecos de papel, são muitas as sensações que nos percorrem nesta cidade. Quanto mais não seja, saber que estive ali, no centro de tudo, onde há tão pouco tempo (um piscar de olhos, se pensarmos em toda a História) se cometeu uma das maiores barbáries de que há memória.

Em Hiroshima, ainda, tempo para o castelo, reconstruído após o ataque que o dizimou, e para apreciar as duas árvores que sobreviveram a este "holocausto": um eucalipto e uma nogueira, ainda vivos. Para provar que a Natureza arranja forma de se sobrepor ao terror e permanecer.

 O Castelo de Hiroshima, reconstruído após o ataque. O eucalipto que sobreviveu à catástrofe. A nogueira que se manteve lá após a bomba. A torre do Castelo de Hiroshima, também reconstruída. Vista da cidade: Hiroshima é uma cidade nova mas com uma História marcante.

Lembrar-me-ei por muitos anos de Hiroshima e daqueles meninos a cantar no Memorial da Paz. A sensação que se fica de visitar aquele lugar, no meu caso, foi de uma intensa revolta contra a impunidade para com os autores de um homicídio em massa e uma sensação de impotência perante a brutalidade. Ao mesmo tempo, porém, a forma como a cidade foi reconstruída das cinzas e a forma como os seus habitantes encaram o futuro e lutam por um mundo livre de armas atómicas, acalma um pouco a intensa sensação de injustiça com que se sai daquela que foi, provavelmente, a cidade mais massacrada durante a 2ª Guerra Mundial.

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