Depois de Hiroshima a mágica ilha de Miyajima veio mesmo a calhar. De uma cidade carregada de intensidade histórica passámos para uma ilha onde a Natureza é rainha suprema, intercalada aqui e ali por templos e pagodes que de tão bonitos nem parecem reais.
Classificada como uma das três paisagens mais bonitas do Japão (e, diria eu, do mundo) "a ilha dos templos" é conhecida por ser extremamente devota ao Budismo. Tanto que, reza a tradição, ninguém pode lá morrer ou nascer. Sim, a dúvida sobre como farão com as grávidas ou os agonizantes também nos assolou. Mas é assim. Nascer ou morrer em Miyajima está fora de questão. A ilha é reconhecida em todo o país pela famosa e enorme porta torii, construída num local onde, com a maré cheia, a água chega até uma certa altura, dando a impressão de que aquela grande "portão" vermelho está a flutuar.
Pormenores da Porta Torii e do Templo Itsukushima
Outro dos pontos de atracção desta ilha, Património Cultural da Unesco, é o Templo Itsukushima, também ele construído em cima da água e único no mundo por causa disso mesmo. As várias partes do templo, que incluem altares ou um palco para o teatro noh, estão assentes em pilares cravados no fundo mar.
Neste não ficámos a pernoitar mas dizem que uma das maravilhas deste lugar é, no crepúsculo, sair do ryokan com uma yukata e umas sandálias geta (aquelas que têm dois pedaços de madeira na sola) e caminhar pelos patamares deste templo, olhando o reflexo da Lua na água do mar. Ficará certamente para uma próxima. Assim como assim, com a quantidade de sítios deslumbrantes, já escolhemos pelo menos uma dúzia para a Lua de Mel...
Miyajima é, no ideário japonês e nos nossos corações, uma ilha para apaixonados. Tudo é bonitinho, desde os templos construídos de forma a parecerem integrados numa Natureza delicada mas exuberante, onde cachoeiras caem em pedrinhas esverdeadas pelo musgo, onde espreitam em todo o lado árvores finas com as devidas identificações em itálico, borboletas azuis e negras, passarinhos que assobiam fininho, riachos que refrescarão as memórias em dia de calor tropical.
A paisagem bucólica da ilha de Miyajima
E os bambis, claro. Tidos como mensageiros dos deuses, os veados passeiam livremente por toda a ilha. Encontrámo-los nas situações mais engraçadas: a entrar calmamente numa loja, a roubar o mapa das mãos de um turista, a espreitar o saco de um velhinho que passeava e com sérias investidas em busca de qualquer coisa que se comesse. Nas ruas, nos templos, nas lojas, nos bosques ou na praia, os veados são os donos do pedaço, em perfeita interacção com os habitantes de Miyajima, que parecem habituados ao estranho mas delicioso facto de que, em vez de gatos e pombas, os animais daquelas ruas são os veados.
Os Bambis, senhores e veados da ilha toda.
E não são apenas dois ou três, não. São umas boas centenas e é usual ver um grupo de cinco ou seis a descansar ao Sol, outro grupo de três a observar o mar e um bebé aninhado a um canto à espera da mãe veado.
Caminhando ilha fora, vamos dando aqui e ali com lugares sagrados, entre templos, locais de oração, pagodes e pontes construídas sobre ribeiras. Um desses templos, na minha opinião o mais bonito e impressionante, é o Daisho-in. E, efectivamente, não sou só eu que o digo: este é um dos lugares mais importantes para o Budismo Shingon (aquele iniciado pelo amigo Kobo, no Monte Koya).
Templo de Daisho-in: as mini-estátuas de Jizo, locais de purificação, os bonequinhos cegos, surdos e mudos e a escadaria do templo.
Este templo comporta um conjunto grande de locais de culto e algumas representações engraçadas: entre elas, uma escadaria enorme com um conjunto infindável de miniaturas de Jizo, a entidade responsável por nos guiar entre uma vida e outra, todos eles pequeninos, redondinhos e fofinhos, representando diferentes formas desta entidade, fazendo diferentes carinhas e ostentando diferentes ornamentações.
Outra dessas representações curiosas está na escadaria de acesso ao edifício principal do templo: uns cilíndros colocados no centro das escadas contêm a sutra (escritos budistas) e passar a mão por eles enquanto se desce a escada é o equivalente a lê-los, ainda que não se perceba japonês, e retirar daí todas as bênçãos que a leitura da sutra traz.
Bonito mesmo é passear pela ilha observando tudo com muita atenção: partir do terminal do ferry, passar pelo Itsukushima, continuar ao longo da beira-mar. Aparecerá primeiro o Templo Omoto, depois o Pagode Tahoto (donde se têm bonitas vistas de toda a baía) e por fim o Templo de Daisho-in. Continuando, para quem tem boas pernas e muito tempo, chegar-se-ia ao Monte Misen, onde mais templos, macacos e um bonito observatório aguardam os visitantes.
Cachoeiras perto de Daisho-in. A vista geral desde o Pagode, sobre o templo principal.
Aí não fomos: fomos antes ver o pequeno comércio local, onde tudo parece funcionar na base da vizinhança e do bom preço.
Miyajima pareceu-me conhecida porque de certeza que algures, numa história de encantar ou num sonho, já ouvi falar desta ilha onde ninguém nasce ou morre, onde os templos emergem da água e os veados aparecem na janela para roubar uns goles de chá verde.
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