13.6.11

Mount Koya, Japan

Como fizemos de Osaka a nossa base na primeira semana de Japão, houve dois dias e uma noite dessa semana em que estivemos no Monte Koya, mais propriamente em Koyasan. Esta cidade é o centro de um tipo de Budismo, a religião mais disseminada no Japão, chamado Budismo Shingon, que existe no Japão desde o séc. IX e foi introduzido por Kobo Daishi, uma das personalidades japonesas mais acarinhadas e respeitadas. Conta a lenda que Kobo estava na China a estudar e atirou com o seu sankosho (um instrumento cerimonial budista) na direcção do Japão. Quando estava de volta ao seu país, Kobo Daishi procurava um local para instalar os headquarters da sua religião e eis que, depois de várias buscas, descobre o seu sankosho instalado num pinheiro de Koyasan. Pinheiro esse que ainda existe hoje. Iluminado por esta descoberta Kobo iniciou logo a construção do Garan (em 826), o complexo de templos mais importante do Monte Koya, local de peregrinação e culto de todo o Japão.

A ideia que tinha do Budismo é a mesma que terão mais uns milhões de pessoas que não conhecem esta religião: achava então que se limitavam a achar que Buda era Deus, a terem uma série de nóias com os lugares dos móveis e a acharem que podemos reencarnar numa minhoca ou num cedro.

Claro que é muito mais do que isso. Tendo sido "oferecida" ao Japão pela Coreia, esta nova religião, baseada nos ensinamentos de Gautama Siddhartha, o Grande Buda, é, mais até do que uma religião, uma filosofia não teísta, ou seja, não acreditando em Deus ou deuses mas antes em ensinamentos que levarão os seres a escapar ao sofrimento (caracterizado como sendo o ciclo ininterrupto de nascimentos, ou, mais vulgarmente, as reencarnações) e atingir o nirvana. Alguns dos conceitos principais do Budismo são o karma: a lei da causa e efeito; as reencarnações, o respeito pela Natureza, a inclusão dos quatro elementos no processo religioso e um grande número de conceitos, rituais e práticas que variam tanto quanto, da mesma forma, variam os ramos do Budismo, espalhados por países tão distintos quanto a China, a Coreia, o Japão, o Sri Lanka ou a Índia.

Altar de um templo budista em Koyasan

Quanto a nós, chegámos a Koyasan ao início da tarde, puxados desde cá de baixo por um elevador que nos fez subir umas boas centenas de metros até ao topo da montanha, onde o ar era mais frio mas com uma limpidez do mais saudável possível. Aí, iríamos ficar uma noite alojados num templo budista, tendo os monges como cicerones e participando de alguns dos seus rituais, como a oração e os horários, assim como o próprio alojamento e as refeições típicas.

Este tipo de alojamento chama-se shubuko e é um hábito bem popular no Japão, destinado sobretudo a peregrinos mas também a turistas interessados em ver a vida num templo budista que, se recebe peregrinos, chama-se então ryokan. Escolhi o templo Shojoshin-in para pernoitarmos, um dos mais antigos, construído três anos antes do próprio templo principal estar pronto. No templo, um simpático monge recebeu-nos pedindo que nos descalçássemos e levou-nos a conhecer um lugar onde o silêncio era apenas cortado pela água a cair no lago do jardim japonês, onde os peixinhos vermelhos, as plantas e aquelas árvores que parecem crescer na horizontal alternavam apenas com os espaços para a meditação, todos eles madeira clara. O nosso quarto tinha dois futons num chão de tatami, essa "palhinha" tradicional que, digo-vos, é mais confortável do que muito bom colchão onde já dormi.

O jardim japonês do ryokan. A cozinha do templo. Entrada para a sala de refeições. Lanternas douradas no exterior do templo. Um jardim zen à entrada. A entrada principal do ryokan. A banheira para o banho japonês. O nosso quarto em Shojoshin-in.

Não estarei a exagerar se disser que este foi um dos sítios mais bonitos onde estive a minha vida toda. Talvez depois da Amazónia, no Brasil, e de Sian Ka'an, uma reserva ecológica na costa caribenha do México, seja Koyasan o lugar mais bonito do meu mundo. Com a vantagem que se os outros dois sítios da minha lista são "apenas" Natureza, este junta a uma Natureza exótica e diversa, construções humanas de um valor incalculável e de uma tal adequação ao meio envolvente que nos deixa encantados.

O ponto alto de todo este misticismo envolvendo a Natureza e a religião está no caminho que conduz ao templo de Okunoin, mausoléu de Kobo Daishin, que se acredita nunca ter morrido mas antes estar em eterna meditação à espera do Buda do Futuro e a dar alívio a quem lhe pede por salvação. O cemitério de Okunoin, que precede o templo, é dos maiores do Japão, com mais de 200 mil tumbas de pessoas muitas delas importantes na História do Japão, que querem estar perto de Kobo na sua morte. E é realmente impressionante: por todo o lado, as estátuas completam-se com árvores e oferendas aos mortos, que são representados por pequenas estatuetas envolvidas por panos vermelhos. Os memoriais e os templos incluem alguns bem curiosos como, por exemplo, o de uma empresa de pesticidas que ergueu um memorial em nome dos insectos que matou com os seus produtos, uma vez que segundo a crença budista todos os seres vivos têm alma e poderão reencarnar entre si.

O cemitério termina no espaço de oferendas a Gokusho, que normalmente se traduz em água atirada contra as estátuas de Jizo, um elemento budista responsável por tomar conta da criançada, dos viajantes e das almas dos mortos. Outros rituais realizam-se também ao longo deste caminho: num, devemos olhar para o fundo de um poço - diz a lenda que quem não vir o seu próprio reflexo morrerá no espaço de três anos. Noutro, pedem-nos que levantemos uma pedra enorme presa numa jaula de madeira - só os virtuosos a conseguirão levantar. No poço vimo-nos bem mas à pedra ninguém a conseguiu levantar...

 Caminho até ao mausoléu de Kobo, através de um dos mais importantes e mais importantes cemitérios budistas do Japão, com as suas oferendas e homenagens às almas que partiram.
 
De volta ao nosso ryokan, era hora de jantar. Estávamos todos relaxados da caminhada e do ambiente zen e era altura agora de encher o bandulhinho com umas boas delícias vegetarianas. Quando entrámos naquela sala de tatami, não nos apercebemos logo do que tínhamos ali, literalmente a nossos pés: provavelmente a comida mais horrorosa que alguma vez levei à boca. Entre coisas gosmentas e avinagradas, sopas com relva e bolinhas com riscos azuis e cor-de-rosa, uma pasta que parecia pomada e outros amuse bouches de fazer estremecer o mais corajoso, não conseguimos comer nada. Ou quase nada. Valeu-nos o saco do Corte Inglês onde despejámos a comida para não ofender os monges... Tratava-se aquilo tudo de shojin ryori, a comida típica dos monges budistas de Koyasan.


 A maravilhosa comida que, inexplicavelmente, não comemos. Até o chá cheirava a peixe.

A experiência gastronómica foi imediatamente esquecida por um banho relaxante com a chuva por som de fundo, água quente e aquelas banheiras fundas que mais pareciam pequenas piscinas. A noite foi suave e serena, enrolado em fofíssimos edredons e ouvindo lá fora a noite a tomar conta do reduto budista de Koyasan.

No dia seguinte, pelas seis, descemos todos contentes com as nossas vestimentas típicas, as yukatas, prontinhos para meditar. Logo o monge nos advertiu simpaticamente que aquelas eram roupas de dormir e não de rezar e foi mesmo com os nossos trapinhos que fomos, depois, assistir à cerimónia da manhã, na sala principal do templo. Aí, durante 45 minutos, três monges entoavam mantras, com os tais oohmmmmm característicos desta religião. Claro que não percebíamos nada do que dizia mas embora tenha achado 45 minutos um pouco demais, não deixei de achar muito relaxante e sem dúvida mais perto de uma qualquer realidade paralela do que os conservadores e politicizados sermões dos padres católicos.

Depois disso, pequeno-almoço e a história da noite anterior repetida mas desta vez sem saco de plástico à mão. Ainda me soube bem uma das sopas que lá estavam (honestamente, não estou a fazer concessões) mas o arroz em papa era demais para as sete da manhã, assim como o ananás em vinagre e as ervilhas mal cheirosas.

Tirando a comida, que depois acabámos por abastecer num dos mercadinhos locais, tudo naquele lugar foi para mim muito especial. Aconselho todos os casais que queiram uma Lua de Mel diferente da habitual estadia nas Caraíbas um retiro durante uma semana em Koyasan. Desde que levem abastecimento, claro. Pela vila, grupos de colegiais passavam por nós, algumas delas mais corajosas, levantando a mão e dizendo um tímido hello, ou então um Nice boys! deitado aos nossos diferentes olhos redondos.

Um jardim zen em Koyasan .A entrada para outro ryokan. Jardim de um templo (1). Jardim de um templo (2). Conjunto de mantras em pedra. Pagode de dois andares no Garan. A ida embora, acima das nuvens, no elevador.

No resto do dia começou a chover a sério naquele retiro budista. Tanto que quase não encontrávamos o Garan com o belíssimo pagode de Konpon Daito. Mas vimos, claro, entre as abertas que o Buda da chuva nos deu até quase ao meio da tarde, onde voltámos a Osaka no já conhecido elevador e onde fiquei com a sensação de que gostaria muito de voltar pois dificilmente acredito que possa encontrar outro sítio no mundo com tamanha sensação de tranquilidade e de envolvimento com a Natureza. Para a próxima, com um carregamento extra de bolachas e chocolates.

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