30.6.11

Nagasaki

Nagasaki é a cidade portuária mais próxima da Ásia e foi por isso um dos portos mais importantes do Japão, entre os poucos que estavam operacionais durante o período de isolamento do país, entre os séculos XVII e XIX, numa altura onde as relações internacionais japonesas se limitavam a escassos contactos com a China e a Holanda. Os portugueses, expulsos logo sem qualquer piedade (vá-se lá saber o que andámos por lá a fazer para sermos assim expulsos) tinham-se estabelecido também, em grande parte, em Nagasaki, e lá deixaram algumas curiosidades como o Castella, um filho do nosso famoso pão-de-ló.

Nagasaki é também conhecida, infelizmente, por ter sido alvo do segundo ataque atómico norte-americano ao Japão. Às 11.02 do dia 9 de Agosto de 1945, o avião norte-americano Bockscar despejou sobre a cidade de Nagasaki a bomba atómica Fatman, depois de ter desistido do objectivo original, que seria a cidade de Kokura. Mais uma vez o alvo foi escolhido devido às condições atmosféricas. Fatman explodiu a mais de três quilómetros do local designado previamente, largando 6,4 quilos de plutónio a menos de 500 metros do solo. Nessa explosão, a temperatura subiu para 3900 graus e a rajada de vento provocada foi de 1005 km/hora. O raio de destruição imediata foi de dois quilómetros, seguido de mais três quilómetros devastados por incêndios e de uma propagação incalculável de resíduos nucleares, levados pela chuva e pelo vento. 75 mil pessoas morreram imediatamente, seguidas de outras tantas, ao longo dos anos, por problemas causados pela radiação. Ironicamente, várias pessoas que tinham sobrevivido ao ataque a Hiroshima, procuraram refúgio em Nagasaki...

 
 
 
 
 
O local exacto da bomba. Destroços da Catedral de Santa Maria. Os habituais grous de oferta. A estátua à Paz. A placa enviada pela cidade do Porto. Estátua oferecida a Nagasaki.

O Parque da Paz em Nagasaki não é tão impressionante como o de Hiroshima, talvez por ser uma cidade mais pequena, mais tropical... Mas não deixa de ser muito marcante: ver o local exacto do ataque, agora em pleno centro da cidade, e perceber que também ali o mundo acabou naquele dia... O Fatman caiu mesmo ao lado da maior igreja católica da cidade, da qual só restam uma ou duas colunas. É impressionante, sim, o parque das estátuas, com homenagens enviadas pelos vários países às vítimas do ataque norte-americano. Incluindo uma placa enviada pelo Porto, cidade geminada.

Em Nagasaki, a maior aventura foi à chegada, quando no nosso hostel nos prepararam uma surpresa com direito a baratas debaixo das malas, quando já nos preparávamos para tomar o nosso banho e dormir descansados. Como verifiquei na altura, é certo que as baratas resistem à bomba atómica. Só faltou mesmo ver a Cher por lá...

Depois de fugirmos do hostel infestado, e marralhar com a japonesa para que nos devolvesse os ienes a que tínhamos direito, dormimos descansados, para no dia seguinte descobrir uma cidade fofinha, diferente das outras por ter um vibe muito mais tropical, até mais mediterrânica, diria eu.

 
 
 
Pormenores da Chinatown. Os peixões no lago à porta do restaurante.

Depois do Parque da Paz, visitámos a Chinatown mais antiga do Japão, também chamada de Sinchi Chinatown. Noutras alturas foi conhecida por ser dos poucos locais onde os chineses estavam autorizados a comercializar os seus produtos. Hoje, é conhecida pelos seus restaurantes e especialidades. Que, na nossa opinião, merecem apenas a interjeição "bleargh!". Armados em finos, fomos almoçar a um restaurante chinês e pedimos crepes chineses e arroz chau-chau. Não se pode falhar com crepes chineses e arroz chau-chau. Bom, mas foi o que aconteceu. E mais uma vez andou o Ruben a carregar um saco de comida para deitar ao lixo pelas ruas da cidade...

Procurando o Dutch Slope, onde existem casas e jardins de estilo holandês, acabámos por ir parar ao antigo Chinese Settlement, o que não foi uma troca nada má, pois é uma zona residencial, onde antigamente habitavam os chineses e onde deu para ver como moravam os locais. Mais tarde encontrámos a famosa rampa holandesa. É um bairro que se nota ser de uma upper-class local, com casas típicas europeias. Dizem eles, porque sinceramente nunca vi casas assim na Holanda. Mas tudo bem. A história é que os holandeses se estabeleceram aí no séc. XIX para comercializar os seus produtos: gostaram tanto que ficaram.

Mais à frente, subimos no elevador até ao Glover Garden, um local que serviu de inspiração para a Madame Butterfly. Mas bonitas são as vistas lá de cima, com Nagasaki a estender-se ao longo de várias encostas, que vão encontrar o mar que parece recortado tantas são as ilhotas e os pormenores da linha da terra.

 
 
 

O Chinese Settlement. Casa no Dutch Slope. Duas vistas de Nagasaki. A entrada do Glover Garden.
Em Nagasaki, tempo ainda para percorrer as ruas do centro, onde encontrámos um rendilhado de ruas estreitas onde sobressaíam os anúncios e os bares de frequência duvidosa nas ruas de Kankodori e Shianbashi. Onde há umas décadas ainda era possível ver as gueixas, entre o nevoeiro das ruas com cheiro a água do mar.

Mais à frente, a Ponte Meganebashi, mais conhecida como "ponte dos óculos" pelo reflexo que a sua forma faz no canal se assemelhar a um par de óculos redondos. O que nos chamou mesmo a atenção nessa ponte foi o facto de por baixo dela, a nadar no rio, estarem umas dezenas de peixões enormes de todas as cores: laranja, preto, branco, vermelho, azul, amarelo. Peixes grandes, com uns bons três palmos e a boca aberta à espera de comida.

 
 
 O bairro da movida obscura de Nagasaki. A ponte dos óculos. Os peixões debaixo da ponte dos óculos.

No dia seguinte esperava-nos grande viagem em mais um Shinkansen, com direito a duas trocas de comboio até Nara. De Nagasaki, a impressão de uma cidade mais calma, onde a memória do ataque norte-americano faz parte de uma história recente, juntamente com uma maior descontracção e um ambiente mais noir, característico das cidades portuárias e onde durante séculos houve um vai-vem de gente de todo o lado do mundo.

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