A sensação que fico ao deixar Tóquio é de que esta é uma cidade constituída por muitas cidades. Como se tivessem pegado em várias metrópoles e tivessem decidido juntá-las de forma a criar uma só, imensa, enorme, quais milhares de colmeias de abelhas.
E de facto não é apenas sensação: sendo a cidade mais populosa do mundo, a "capital do leste" tem no seu centro quase 13 milhões de pessoas a viver, número que passa para 37 milhões quando falamos da sua área metropolitana. Nós, que cá vivemos com estes 10 milhões mal amarfanhados, não temos capacidade para visualizar toda a dimensão populacional de Tóquio, que além de 23 bairros, todos eles do tamanho de cidades, abarca ainda duas ilhas na sua imensa teia.
Mas o que é curioso é que não parece. É capaz de me fazer mais aflição meia dúzia de gatos pingados a empatar as escadas do metro, no Porto, do que aqueles dois milhões que todos os dias utilizam a estação de comboios de Tokyo, a principal estação da cidade, onde fomos parar à vinda de Nara.
Tudo está organizado ao ínfimo detalhe e seguir o caminho correcto é tão intuitivo quanto utilizar um dos gadgets tecnológicos japoneses. O metro de Tóquio está organizado por números e letras, que ascendem ou descendem consoante o sentido que viajamos, tornando facílimo descobrir qual é a nossa melhor rota e quase impossível perdermo-nos nas ligações. Também para comprar os bilhetes basta chamar um funcionário, que este aparece imediatamente na portinhola ao lado da máquina de venda.
Tóquio funciona bem. Mas o que não funcionou bem foi a nossa experiência no hotel que reservámos. Uma espécie de dormitório, com as famosas camas cápsulas, utilizadas para breves sestas e que são autênticas gavetas de morgue. Eu e o Rubén iríamos ficar num quarto duplo que mais não era do que um colchão disposto no meio de uma camarata e protegido por finas paredes de papel. Quando ouvi a parte do banho ser de dez minutos e com moedas, então dei meia volta e fiz valer o facto de já não ter 18 anos. Nem 28. O hotel seguinte, difícil de alcançar numa caminhada com malas por Tóquio à noite, era um, digamos, hotel do amor. Com quartos saídos de um filme porno dos anos 80, onde não faltava uma imensa consola de controlo da luz e da rádio, música ambiente nos corredores e portas com fechos automáticos que não funcionavam. E por isso, na primeira noite, fizeram-nos um upgrade para um dos quartos finos, desenhado, passo a citar, por "upsetters" e todo ele tatami, colchões no chão, televisores Led, onde se dormiu o sono dos justos.
Não sem antes galgar Shinjuku à procura de comida. Era sábado e eram umas onze da noite. Todo o povo japonês daquele bairro estava já de fiesta, àquela hora: elas com os seus altos tacões e a maquilhagem cutting edge, eles com os seus cabelos no ar, cheios de laqué e todos eles copo na mão e sorriso na boca. Tinha-me apetecido ficar lá, não fosse a canseira e a sofeca da fome, que acabou por ser saciada com dois belos crepes de chocolate, chantilly e morangos, acabadinhos de fazer numa roullotte de crepes que pareceu ter sido lá plantada pelo Espírito Santo.
No dia seguinte, havia cidade para desbravar. Começámos pelo parque Ueno, com os seus muitos museus e templos, onde o pessoal de Domingo costuma passear em Tóquio. Mais mixed with the locals era impossível: até andar no meio de um belo lago, de gaivota, os dois namorados foram, juntamente com famílias japonesas e casais apaixonados. À saída do parque, o mercado de Ameyoko, ou caminho das lojas de rebuçados, um espaço que ficou famoso como mercado negro logo após a 2ª guerra. Hoje, porém, Ame é mais para os produtos americanos que lá se vendem a preços muito baixos, juntamente com um arsenal de coisas que seria impossível descrever, nem que usasse um milhão de palavras. Foi aí que, pela primeira vez na viagem, me deu a ganância das compras. Era tudo diferente, giro e barato.
Japoneses a caminho do parque, num dia de Domingo.
Lago de nenúfares no Parque Ueno.
A voltinha na gaivota pelo lago do parque.
A entrada e a rua principal do mercade de Ame
A ganância voltou passado um bocado, quando visitámos o templo Sensoji. Não que quisesse comprar algo neste templo, um dos principais de Tóquio, construído em 645 depois de dois irmãos terem descoberto uma estátua da deusa Kannon no rio Sumida, que, embora tivesse sido devolvida ao rio, continuava sempre a voltar e a aparecer aos irmãos. Não, a ganância deu-me no mercado que conduz à entrada do templo, na rua de Nakamise, um dos locais de vendas mais antigos de todo o Japão, com uma história de séculos de tradição de comércio. É lá que se arranja todo o tipo de souvenirs japoneses, lindos de morrer. Eu parecia uma baratinha tonta sem saber o que escolher perante tanta coisa tão gira e tão diferente.
A perdição das compras na rua de Nakamise
Entrada para o Templo de Sensoji
Mais tarde, e para um ambiente totalmente diferente, fomos para o bairro de Shibuya, uma das 23 cidades de Tóquio, onde habita a fauna jovem e excêntrica da cidade. É o centro de toda a agitação nocturna, das lojas arrojadas e das tendências. É aqui que começam todas as novidades e é o bairro que faz jus à fama da cidade: tudo é cor, néon, flash e em todo o lado há muita, muita gente diferente. E o melhor sítio para comprovar isso é precisamente na estação de Shibuya, em frente à qual está a estátua de Hachiko. Hachiko foi um cão que viveu nos anos 20 e que é lembrado na história da cidade pela lealdade para com o seu dono, o Professor Ueno. Hachiko esperou durante quase dez anos, depois da morte do seu dono, que este voltasse, indo procurá-lo todos os fins de tarde à porta da estação de Shibuya. A história comoveu os japoneses, que homenagearam o cão com um dia de feriado que celebra a sua morte e homenageia também a qualidade da lealdade, tão rara entre os humanos...
A estátua à lealdade, com Hachiko.
Após a ternurenta estátua de Hachiko, o rebuliço da maior, mais percorrida e mais famosa passadeira do mundo. Que, depois de atravessar, observámos atentamente e por largos minutos da janela do Starbuck's mais próximo.
A passadeira mais famosa do mundo e as lojas de Shibuya. A última foto foi tirada da montra de uma Bershka com modelos bem diferentes dos que temos cá.
Ainda neste dia, Harajuku, o centro da moda mais extrema e mais excêntrica do mundo inteiro. É na rua em frente à estação de Harajuku, Takeshita Dori, que se encontra a juventude que gosta de arriscar quando se veste. De boneca, de empregada de mesa, de ursinho, de punk, com acessórios dos quais só eles se lembram e com um à-vontade ao usá-los que me deixaram muito invejoso. Imaginar como o Porto seria uma cidade mais bonita, se todos tivéssemos um pouquinho que fosse da ousadia das harajuku girls. O objectivo de muitos deles, que alinham no cosplay principalmente ao Domingo ao fim da tarde, é parecerem-se com personagens de Anime, com personagens de filmes e com bonecos conhecidos. E conseguem, garanto.
As modas e as cores de Harajuku
O dia seguinte começou em Ginza, o distrito mais conhecido por ter as lojas mais caras da cidade e pelo metro quadrado custar 90 mil euros. Aqui interessava-nos o Sony Building, onde passámos um bom tempo a descobrir as últimas gadgets da tecnologia. Ir ao Sony Building é como ir à Eurodisney dos geeks: aquilo sim é tecnologia moderna e algumas daquelas máquinas fotográficas ou televisões hão-de demorar um bom par de anos a chegar à terrinha.
Uma das esquinas mais famosas de Ginza, onde há uns anos havia um letreiro da Coca-Cola.
E como estávamos numa de electrónica, fomos depois a Akihabara, o bairro da electrónica mas também dos fãs do Anime e Manga. Aqui, entre as lojas de "coisas" electrónicas que vão desde a altas máquinas a porcas e fusíveis e que variam entre armazéns a la Media Market até quitandas cheias de fios de electricidade e senhores velhinhos, encontram-se os famosos maid cafes, onde as empregadas se vestem como as bonecas Anime, as lojas de coleccionadores de banda desenhada e outros espaços, como bibliotecas destinadas apenas a consultar Anime e Manga. Cá fora, as meninas vestidas de empregadinhas vão entregando flyers mas não se deixam fotografar. Ou quase.
O paraíso do Anime e Manga em Akihabara.
Após almoçarmos em Akihabara, fomos ao Palácio Imperial e, mais uma vez, pareceu que mudámos de cidade. A zona circundante ao palácio, que está lá escondido ao longe, quase fora da vista dos cidadãos, é um imenso jardim de um verde que quase não existe. Ideal para namorar, especialmente num dia de muito calor... Incrível como uma cidade segura é todo o caminho andado para ser uma cidade boa: se pudesse, no Porto, ir trabalhar com o meu PC para debaixo de uma árvore num parque público sem o risco de haver logo um "mano" que mo quisesse surrupiar, tenho a certeza de que seria uma pessoa mais feliz.
Quanto ao palácio, é muito lindo. Mas só se consegue ver uma nesga, através da Kokyo Gaen, a grande praça em frente a uma das fachadas, onde se avista as Nijubashi, as duas pontes que dão acesso ao piso térreo do palácio, do qual se consegue vislumbrar apenas uma parte de uma torre, assim ao de leve. É talvez um dos pontos fracos deste país, o facto de ainda não terem acabado com a palhaçada da família imperial, a qual eles muito prezam mas que, à semelhança das famílias reais europeias, não passa de uma catrefada de gente que usa e abusa de privilégios de casta e que vive vidas faustosas em dinheiro mas parcas em liberdade e em saúde mental. A família imperial japonesa, então, é totalmente reclusiva, fechada no palácio e cheia de nóias, depressões e casos estranhos. O imperador Akihito, coroado em 1989, nunca tinha falado ao "seu" povo até à tragédia do terramoto/ tsunami em Março, tal é a atmosfera quase divina de que se reveste (de facto, foi apenas o Imperador Hirohito, no pós-guerra, que admitiu que o Imperador não é descendente de Deus...
O que dava para espreitar do palácio e os bucólicos jardins em frente à residência do Imperador.
Este não é o palácio mas sim o Palácio dos Congressos de Tóquio, uma construção de arquitectura arrojada, até para os padrões de Tóquio.
Após o que fomos à Torre de Tóquio, construída segundo a Torre Eiffel, em 1958, com a vantagem de ser 13 metros mais alta, perfazendo 333 metros. A minha esperança de ver o Monte Fuji de lá de cima ficou gorada quando a simpática japonesa das informações me dissuadiu de o fazer com um sorriso e um no! béduédere! béduédere! Mais uma vez se nota a honestidade deste povo: se fosse por cá, mandavam-me subir na mesma e pagar. Ou então diziam que não sabiam. Ou que não percebiam bem o que eu queria dizer.
Porém a viagem não foi em vão: serviu para mais um crepe, ali no sopé da torre, desta vez juntando banana ao mix anterior. O quanto eu não dava e o quanto eu dava para ter um crepe daqueles cá em Portugal, assim à mão de semear.
Honestamente, a Torre de Tóquio valeu a pena pelos crepes. Ah, é uma antena de rádio, lá em cima.
Depois de uma nova passagem pelos nossos lugares preferidos de Harajuku, onde fiquei a observar a fauna urbana passar por mim, sentadinho na rua e maravilhado da vida, fomos até Shinjuku, explorar o local por onde tinha começado a nossa viagem em Tóquio. Shinjuku é um mundo quase impossível de descrever. Em torno da estação, hordas de pessoas caminham para comprar, comer e beber. Muitos jovens e muita música, muita televisão em ecrã gigante, carros e daquelas fotos que, de haver tanto movimento, apanham apenas riscos de luz de um lado ao outro.
A zona de Kabukicho é a mais estranha. É conhecida como a maior red light zone do Japão mas é mais, pelo que vimos, uma série de ruas de animação nocturna, com muitos bares e restaurantes. E umas criaturas estranhas, uns homens que porventura serão da máfia japonesa porque intimidam. E outros que estão todos produzidos, às dezenas, plantados no meio da rua a dar flyers às meninas, com os seus fatos escuros, brilhantes e justos, os ouros, o cabelo às madeixas, louro, armado e um olhar que é um misto de desconfiança e ameaça. São os únicos que estão estáticos, no meio daquele rebuliço. E intimidam, muito embora saibamos que estamos mais seguros ali, quase, do que nas nossas casas.
Dá para ver as cabeleiras deles na última foto. Be free to zoom it!
Se alguém fosse apenas umas horas a Tóquio e me pedisse um conselho, dir-lhe-ia que apanhasse o metro para a estação de Shibuya, prestasse homenagem ao fiel Hachiko, passasse por aquela passadeira monumental, entrasse pelas ruas de lojas até à rua louca de Harajuku, onde poderia ficar uns minutos a observar, para depois terminar em Kabukicho, a deambular por entre aquelas japonesas de sorriso rasgado, altas e produzidas e a assimilar todos os sons, as luzes, as cores e os cheiros, que realmente nos transportam para uma realidade completamente nova e fascinante.
Tóquio é, definitivamente, a minha nova cidade preferida.
2 bandeirinhas no ar:
Também fiquei com a sensação de que faltou ver tanto!
Temos de lá voltar.
Mesmo... Dava na boa para passar lá uma semanita. Ou 2 meses.
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