23.11.11

A greve geral de 24/11/11

Decidi quebrar o meu jejum de actualizações não porque de repente me sobre o tempo e não tenha mais em que pensar a não ser no que hei-de escrever sobre mim ou a minha rotina para que meia dúzia de internautas anónimos se congratulem com o pequeno espaço de intimidade que os estou a deixar ver. Deixo isso para as pipocas da vida, que cultivam os seus (ou, diria mais, as suas) voyeurs como se de verdadeiros fãs se tratasse.

Depois de uma reunião de planeamento de acção para a greve geral de amanhã (sempre fui mais de observar do que de interagir, diga-se) resolvi tentar convencer a minha meia dúzia de leitores a não ir trabalhar amanhã. Poderia escrever muito sobre tudo o que se passou em Portugal desde que deixei de escrever neste blogue: a tomada de assalto ao governo do país de uma coligação não eleita pelo povo, o aumento desmesurado de serviços básicos de sobrevivência, o preço a pagar por uma crise que é anunciada e extrapolada todos os dias, o ataque aos mais pobres, aos doentes, às crianças, aos desempregados e aos idosos. Não é ainda altura. É, acho eu, o momento de partilhar três ou quatro reflexões sobre a existência em geral.

E vou fazê-lo por pontos, para que se torne mais claro e não me alongue - já me conhecem o meu inexistente poder de síntese.

1- As pessoas, e os portugueses em particular, habituaram-se a pensar em si próprios como seres desprovidos de direitos. Desde os anos 80, com o amigo Reagan (que a terrinha lhe pese bem em cima dos ombros) e a senhora dona Tatcher que se veio criando a opinião geral de que o Estado (muitas vezes confundido com o governo) não é responsável perante todos os seus cidadãos por um mínimo (?) essencial de serviços ao cidadão, que lhe garantam saúde, educação, segurança, justiça, protecção (abrigo), locomoção (transportes) e representação no estrangeiro. Isto é o básico. Na minha opinião, a isto se deve juntar a cultura. Mas isso são outros quinhentos. A ideia que nasceu daquelas duas cabeças iluminadas, ou melhor, que foi gerada na sociedade pela adopção uma política orientada para o mercado e para o capital, e que foi sendo seguida anos fora por outros políticos pelo mundo, tem em Portugal o expoente em Cavaco Silva e nos seus governos de emagrecimento de direitos e está a ter o seu culminar na política decorrente da crise económica e financeira mundial, iniciada pela falência do banco Lehman Brothers, em 2008, nos EUA. Em geral, quer-se fazer crer (e já o ouvi da boca de pessoas muito inteligentes e bem formadas) que o Estado não é responsável por provir determinados serviços aos cidadãos, que ao fazê-lo está a habituá-los mal e a travar a iniciativa. Até aqui eu até poderia perceber: afinal, por que raio havemos nós de exigir aquilo tudo? Mas a resposta é simples. Porque nós pagamos, efectivamente, aquilo tudo, com uma fracção considerável do nosso salário mensal e com o nosso consumo quotidiano. Entre IRS, IVA, IRC, Segurança Social, entre outros impostos, os cidadãos confiam ao Estado parte dos seus ordenados (uma parte significante - que sejam 25 do que ganham e 23% do que consomem) para que este utilize essa doação a que os cidadãos são obrigados em serviços que se traduzam na manutenção do bem-estar e na provisão daqueles tais serviços mínimos de que falava.

2- É este tipo de organização social que tem andado, desde 1945, a prevenir que nos andássemos todos a pegar uns com os outros. Ao contrário do que pensamos, na nossa breve existência de 20, 30, 40 anos, nem sempre, na Europa, os países foram amiguinhos uns dos outros. Na secular História da Europa, foram até mais os séculos em que nos chateámos uns com os outros. Até, a bem ver, foi apenas nos últimos 50 e poucos anos que nos decidimos todos dar bem. Mesmo ao desmantelar as sociedades socialistas do Leste, mesmo ao unificar o gigante alemão, mesmo ao responder a grandes convulsões sociais, nunca se optou pela guerra. Desde que existe o tipo de Estado que descrevi em cima, que garante a todos os cidadãos europeus uma panóplia de direitos: escolarizando-os, mantendo-os protegidos e saudáveis. Não será uma ideia um pouco perigosa estarmos, agora, a dar cabo deste tipo de Estado, que nos garante a Paz? Estaremos tão cheios de coragem, destas cinco décadas de Paz, que nos damos ao luxo de achar que uma história de guerra e de rivalidades de dezenas de séculos está de facto enterrada?

3- Mas então, porque estamos, de facto, sem dinheiro? Se somos milhões, todos os meses, a transferir parte do nosso ordenado para que o Estado nos garanta certos direitos, o que é feito de tudo isso? Como é possível que não tenha sobrado nada? O nosso dinheiro foi mal gerido pelos governos em quem confiámos, desde 1975. Se eu der 500 euros para alguém me comprar algo que custa 500 euros e essa pessoa me comprar algo que custa 200 e me disser que não tem mais dinheiro, ou o perdeu, ou lhe roubaram o dinheiro ou me está a mentir. Ou então comprou o que eu lhe tinha pedido e, para fazer a vontade a um amigo, comprou-lhe também qualquer coisita que eu não precisava e agora está-me a tentar pedir mais 300. O povo português não tem subsídio de Natal mas tem vários estádios de futebol, construídos para o Euro 2004. Não temos o abono de família mas temos auto-estradas no meio do nada que não levam a lado nenhum. Mais grave. Todos os dias passo por mendigos e pobres que não têm comida nem água para se lavar mas têm uma avenida, no Porto, toda ela concebida pelo Siza Vieira. E têm, também, esses sem abrigo, fogo de artifício no São João e decoração das ruas no Natal. Mas nem vamos chegar, então, aos sem abrigo. Cheguemos à classe média (aquela, a real, que ganha 1000 euros e tem muitas despesas). A classe média, embora tenha pago impostos a vida toda, não tem direito a usar um autocarro de graça. Mas tem submarinos. Dois. A classe média tem que pagar uma taxa moderadora mas já pagou o hospital onde vai ser atendida e até o pagou mais do que devia, porque a parceria publico-privada lhe saiu bem cara. Contra o argumento de que nós vivemos acima das nossas possibilidades digo que o Estado é que gastou acima das nossas possibilidades.

4- Ao procurarmos manter determinados direitos conquistados, esquecemo-nos que havia muitos outros, ainda, para conquistar. Como o ensino superior gratuito, a protecção garantida no desemprego, o fim do trabalho precário, a igualdade de oportunidades entre mulheres e homens, a reforma do sistema de justiça e do sistema prisional, a luta por uma sociedade mais igual. Enquanto nos ocupamos a tentar não perder determinados direitos, pelos quais lutámos e pelos quais pagámos, não nos atrevemos a exigir mais ao nosso fiel depositário, o Estado. E eu bem sei que os mais velhos passaram por muito pior: o Salazar, a fome, a guerra do Ultramar, a miséria e terem que trabalhar aos dez anos. É tudo verdade. Mas em nome de ter havido outras gerações que passaram piores bocados que nós, devemos abdicar de conquistar uma vida melhor para nós e para os nossos descendentes? Por esta ordem de ideias ("no meu tempo é que era! nós é que sofremos, vocês são uma cambada de miúdos mimados!") não se tinha acabado com a escravatura, não tinha havido voto para as mulheres nem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Se é para manter a guarda em baixo em nome dos sacrifícios que outros passaram, então terminamos com a evolução social e resolve-se o assunto por aqui.

5- Os portugueses nunca vão mudar. Seremos sempre passivos, caladinhos, com medo do patrão, a achar que o que temos já é muito bom, que pedir é feio e que exigir é mal educado. Queremos alguém que nos diga o que fazer, achamos que sabemos tudo sobre tudo e que dantes é que era. Que o Salazar até era bonzinho e que devemos é ser agradecidos por ter pão que levar à boca. Cavaco Silva é o maior exemplo de que Portugal nunca teria saído do Estado Novo se não houvesse um golpe militar. Andaríamos ainda aqui, de João Jardim em João Jardim, de Pinochet em Pinochet, à espera que o mal passasse.

6- É importante dar sinais de que já não somos assim. É importante, em nome dos nossos direitos, da manutenção da Paz, da denúncia dos abusos que foram cometidos e da possibilidade futura de termos uma vida melhor. É muito português achar que querer uma vida melhor é vergonha. Ou que a diversão é vergonha. Ou que o descanso é vergonha. (Não imaginam os olhares de ofensa que tive, numa aula, quando disse que não queria trocar o horário porque ao Sábado de manhã, hora proposta, eu queria dormir.)

A nossa única arma, por enquanto, é a greve. É a única forma de dizermos que não estamos de acordo. E eu não estou de acordo. Preciso de viver num país onde não tenha medo de, amanhã, vir a passar pelo mesmo que passaram essas tais outras gerações que olham, agora, estes sacrifícios como poucos.

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